{"id":152,"date":"2016-07-27T16:40:02","date_gmt":"2016-07-27T19:40:02","guid":{"rendered":"http:\/\/www.edgar.pro.br\/blog\/?p=152"},"modified":"2016-07-27T16:40:02","modified_gmt":"2016-07-27T19:40:02","slug":"copos-cheios","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.edgar.pro.br\/blog\/2016\/07\/27\/copos-cheios\/","title":{"rendered":"Copos cheios&#8230;"},"content":{"rendered":"<blockquote><p>\u00c9 sempre bom lembrar<br \/>\nque um copo vazio<br \/>\nest\u00e1 cheio de ar&#8230;<\/p>\n<p>(Gilberto Gil)\n<\/p><\/blockquote>\n<p>Sobre a mesa, um copo. De vidro. Transparente. O copo est\u00e1 l\u00e1, ele o olha absorto. Estava vazio. N\u00e3o se recorda o que havia no copo. Cerveja, suco de laranja, groselha? Talvez \u00e1gua. A verdade \u00e9 que n\u00e3o se recordava nem mesmo h\u00e1 quanto tempo o copo l\u00e1 estava. Tinha por h\u00e1bito lagar os copos pela casa. S\u00f3 se lembrava de recolhe-los quando j\u00e1 n\u00e3o havia mais nenhum outro no arm\u00e1rio. Eram copos de todos os tipos. Copos bonitos, feios, grandes, pequenos. Alguns foram ganhos, outros roubados. E havia os de requeij\u00e3o. Aquele sobre a mesa era apenas mais um copo cheio de ar. Ar \u00e0 espera do despejo de si por algum liquido ali despejado. Absorto a olhar o copo, a sua mem\u00f3ria transbordou&#8230;<\/p>\n<p>Lembrou-se do aluno. O aluno que lhe indagava sobre o universo, sobre os mist\u00e9rios impr\u00f3prios \u00e0 filosofia. O aluno cujos pais tinham por fun\u00e7\u00e3o ignor\u00e1-lo. O aluno cujos amigos tinham por prazer atorment\u00e1-lo. Lembrou-se daquele copo cheio de sonhos, de talentos. Aquele copo que todos diziam vazio. O copo que num dia cinzento, rompeu-se. Estilha\u00e7ou-se em fezes nas paredes do banheiro masculino. Tirou de dentro de si tudo aquilo que diziam que ele era. Escreveu nas paredes todos os excrementos verbais que ouvira com seu pr\u00f3prio excremento. Tudo o que aquele copo queria era ser um corpo, um algu\u00e9m. Tudo o que lhe permitiram foi ser um copo cheio de dor, de raiva, um copo que, vez ou outra, indagava sobre o universo, sobre os mist\u00e9rios impr\u00f3prios \u00e0 filosofia&#8230;<\/p>\n<p>Lembrou-se da garota. A garota que, ignorando que todos o ignoravam, sorriu-lhe. Sorriu-lhe ainda que n\u00e3o tivesse motivos para sorrir. A garota que lhe contou seus segredos mais \u00edntimos. Segredos que a faziam chorar todas as noites. Chorar por sua impot\u00eancia adolescente contra um mundo adulto. Um copo trincado por tantas quedas. O copo que, num dia sangrento, p\u00f4s para fora aquilo que lhe meteram \u00e0 for\u00e7a. Tudo o que aquele copo queria era ter seu corpo de volta. Um corpo que lutava para n\u00e3o transparecer suas trincas. Um corpo que escondia-se em sua beleza maquiada. Um corpo cujas l\u00e1grimas encharcaram seu ombro. Um corpo tr\u00eamulo. Um corpo que lhe sorriu e sobre quem despejou suas l\u00e1grimas. L\u00e1grimas que ainda escorrem dos seus olhos quando pensa nela. Aquela garota que em uma noite ensinou-lhe o que ele jamais poderia saber por si s\u00f3&#8230;<\/p>\n<p>Quando deu por si, estava com o copo entre as m\u00e3os. Olhou no seu interior e, depois de um longo suspiro, deixou-o cair ao ch\u00e3o. O barulho preencheu o sil\u00eancio do c\u00f4modo. Os cacos se espalharam pelo piso. Recolheu um dos cacos e levou-o a contra-luz.<\/p>\n<p>N\u00e3o era mais um copo, n\u00e3o estava mais vazio.<\/p>\n<p>E.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 sempre bom lembrar que um copo vazio est\u00e1 cheio de ar&#8230; (Gilberto Gil) Sobre a mesa, um copo. De vidro. Transparente. O copo est\u00e1 l\u00e1, ele o olha absorto. Estava vazio. N\u00e3o se recorda o que havia no copo. Cerveja, suco de laranja, groselha? Talvez \u00e1gua. 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