{"id":169,"date":"2016-08-09T13:34:44","date_gmt":"2016-08-09T16:34:44","guid":{"rendered":"http:\/\/www.edgar.pro.br\/blog\/?p=169"},"modified":"2016-08-09T13:41:24","modified_gmt":"2016-08-09T16:41:24","slug":"andancas","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.edgar.pro.br\/blog\/2016\/08\/09\/andancas\/","title":{"rendered":"Andan\u00e7as&#8230;"},"content":{"rendered":"<p>O caminho \u00e9 sempre o mesmo. A playlist vai ao sabor da aleatoriedade. As pessoas nos carros olham-me com um ar indignado. Elas l\u00e1, presas em seus ares condicionados, eu c\u00e1, em meio a manh\u00e3, vagando&#8230; H\u00e1 uma f\u00e1brica no meio do caminho. Caminh\u00f5es, oper\u00e1rios, o cheio de \u00f3leo diesel misturam-se com a brisa gelada. Ao meu lado, um estudante. Sua mochila pesa mais que o necess\u00e1rio. O volume da m\u00fasica \u00e9 baixo, assim posso ouvir o som de meus passos. As folhas de bambu balan\u00e7am ao vento. Uma senhora cruza meu caminho. Seu olhar cruza o meu. Um olhar sofrido. Aceno timidamente com a cabe\u00e7a, como que diz bom dia sem mover os l\u00e1bios. Ela retribui mais timidamente ainda e aperta o passo. Ao longe, vejo-a subir no \u00f4nibus. Vejo copos de papel pelo gramado. Um ma\u00e7o de cigarros vazio. Uma embalagem de sorvete. Penso no que eu disse outro dia a um grupo de jovens, sobre porque jogamos lixo nas ruas. Quando dou pro mim, j\u00e1 estou novamente entre os bambuzais. As folhas rodopiam no ch\u00e3o, misturam-se \u00e0 areia. Outros dois estudantes dividem o trecho comigo. Suas mochilas tamb\u00e9m parecem pesar mais que o necess\u00e1rio. Conversam sobre algo que n\u00e3o consigo compreender, suas palavras misturam-se \u00e0 letra da m\u00fasica que ou\u00e7o. A m\u00fasica fala de um amor qualquer. Os estudantes riem. H\u00e1 uma cumplicidade. <em>No ser\u00e1s capaz de odiarme<\/em>. Enquanto o refr\u00e3o da m\u00fasica me faz pensar em tantas coisas j\u00e1 vividas, os estudantes seguem em frente. Eu fa\u00e7o a curva. Pelos vidros vejo as estantes, os livros. Entrei poucas vezes naquela biblioteca. Deveria entrar mais, penso. A playlist joga com minhas ideias. As pernas seguem o trajeto. Olho para a bandeira que tremula. Janelas de escrit\u00f3rios, gabinetes. O centro de poder \u00e9 feito de concreto e vidro, a biblioteca de vidro e metal. O lago \u00e9 falso. Artificial. Mas n\u00e3o deixa de ser belo. As ondula\u00e7\u00f5es da \u00e1gua refletem o t\u00edmido sol que se esconde atr\u00e1s de nuvens. A timidez do sol, a minha timidez, a timidez daquela senhora. O farol est\u00e1 vermelho para mim. Me obriga a parar. As pessoas nos carros continuam a me olhar com indigna\u00e7\u00e3o. Luz verde, cruzo a avenida. Vejo o apresentador do jornal chegando \u00e0 TV. Seu rosto \u00e9 familiar. Mas n\u00e3o fa\u00e7o ideia de sua vida, de sua trajet\u00f3ria, de quem seja. Penso em quantas pessoas realmente me conhecem. <em>4 Non Blondes<\/em> come\u00e7a a tocar. Banda de uma m\u00fasica s\u00f3. O cheio de diesel continua no ar, a f\u00e1brica e os caminh\u00f5es olham para mim e me perguntam: what&#8217;s going on? Ou ser\u00e1 a m\u00fasica? Em frente a universidade p\u00fablica, um carro se joga contra mim. E me xinga. Ousadia minha transitar justo na hora que sua m\u00e1quina e sua pressa cruzam a cal\u00e7ada. O susto me traz de volta sem que eu pudesse responder \u00e0 f\u00e1brica, aos caminh\u00f5es ou \u00e0 m\u00fasica. A portaria do condom\u00ednio est\u00e1, agora, a poucos metros. Retiro os fones de ouvido e um estranho sil\u00eancio se faz&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O caminho \u00e9 sempre o mesmo. A playlist vai ao sabor da aleatoriedade. As pessoas nos carros olham-me com um ar indignado. 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