{"id":195,"date":"2016-09-07T14:41:37","date_gmt":"2016-09-07T17:41:37","guid":{"rendered":"http:\/\/www.edgar.pro.br\/blog\/?p=195"},"modified":"2016-09-07T14:50:35","modified_gmt":"2016-09-07T17:50:35","slug":"ordinario","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.edgar.pro.br\/blog\/2016\/09\/07\/ordinario\/","title":{"rendered":"Ordin\u00e1rio&#8230;"},"content":{"rendered":"<p>O fantasma de Hume me assombra. Impress\u00f5es, nada mais h\u00e1 que impress\u00f5es. A solidez das minhas ideias se desmancha na profundidade daquele olhar. Ordinariamente, o sol nasce todos os dias.<\/p>\n<p>O banho \u00e9 o catalisador das minhas epifanias. A \u00e1gua morna que desce pelos ombros, o som desritmado das gotas atingem o piso, os fractais de respingos no box, panos de fundo de um processo maior: o turbilh\u00e3o de fragmentos de uma noite, uma madrugada, um alvorecer. Cylon, eu n\u00e3o passo de um maldito cylon humano.<\/p>\n<p>Ser ou n\u00e3o ser, eis a quest\u00e3o. Eu li Shakespeare na faculdade. Lembro menos da obra que da minha professora de literatura inglesa. Ela era jovem, bonita, inteligente. Antes de Shakespeare, em literatura norte-americana, fiz uma an\u00e1lise sobre um conto do meu xar\u00e1 Edgar Allan Poe. Devorei as p\u00e1ginas de Manuscrito Encontrado Numa Garrafa, cavei fundo a biblioteca da faculdade, n\u00e3o havia Google naqueles tempos, dei minha alma ao trabalho. No dia da apresenta\u00e7\u00e3o, enquanto as colegas de classe me davam parab\u00e9ns, a professora me olhou, colocou a m\u00e3o no queixo em sinal de pausa, e cravou a minha senten\u00e7a de morte: Edgar, eu esperava mais de voc\u00ea. Dram\u00e1tico? Sim, shakespeariano!<\/p>\n<p>O pr\u00edncipe atormentado, Hamlet, me atormentou. Quisera eu ser Hor\u00e1cio para dizer-lhe, foda-se Hamlet. Edgar Allan Poe me persegue at\u00e9 hoje, mas Shakespeare eu abandonei. Atormentado pela decep\u00e7\u00e3o da minha professora, nunca tive a coragem de lhe perguntar: o que raios voc\u00ea esperava de mim? De mim? Justo de mim? Ser ou n\u00e3o ser, acabei no teatro. Por circunst\u00e2ncias que ficar\u00e3o para outro texto, embarquei numa trupe teatral. Nada de Shakespeare, apenas Ver\u00edssimo, o filho. Numa noite de bebedeira com os caras da trupe, encontrei a minha professora com a trupe dela num desses bares da vida. Ela se levantou ao me ver, me chamou e me apresentou \u00e0s pessoas da mesa: Edgar, o \u00fanico da turma dele que teve 10 comigo. Aqui j\u00e1 est\u00e1vamos em literatura inglesa. N\u00e3o sei o que eu fiz com aquela prova sobre Hamlet, mas aquele 10 era t\u00e3o ordin\u00e1rio quanto eu mesmo. Meu 10 estava em um manuscrito a ser encontrado numa garrafa.<\/p>\n<p>Epifania, era sobre isso que eu falava. O banho, momento m\u00e1ximo das minhas epifanias. Battlestar Galactica est\u00e1 longe de ser t\u00e3o not\u00f3ria quanto Hamlet, mas h\u00e1 dilemas que s\u00e3o universais, afinal, n\u00e3o \u00e9 isso que torna algo cl\u00e1ssico, a universalidade? Cylons humanos n\u00e3o sabem que s\u00e3o cylons, eles n\u00e3o sabem que s\u00e3o m\u00e1quinas biol\u00f3gicas constru\u00eddas por humanos de verdade (verdade?). Eles apenas pensam que s\u00e3o humanos e, como tais, que s\u00e3o especiais. E, meu amigo, existe uma grande dist\u00e2ncia entre se achar especial e ser especial. Ser ou n\u00e3o ser, eis a quest\u00e3o.<\/p>\n<p>Ainda que a cena n\u00e3o seja essa, algu\u00e9m aponta o dedo na sua cara. Te tira da sua confort\u00e1vel posi\u00e7\u00e3o, ou, na ficcional Battlestar Galactica, um laser disparado no meio do seu peito e&#8230; bum! voc\u00ea renasce numa nave-de-ressurei\u00e7\u00e3o e, em meio a flu\u00eddos e cabos, se percebe cylon. Com pele, ossos e um rosto atraente, mas nada mais que um cylon.<\/p>\n<p>O problema das epifanias: elas estalam feito pipoca! P\u00e1, pum, l\u00e1 est\u00e1 ela&#8230; mas vai levar tempo, muito tempo para eu digerir o eco desse estalo.<\/p>\n<p>E.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O fantasma de Hume me assombra. Impress\u00f5es, nada mais h\u00e1 que impress\u00f5es. A solidez das minhas ideias se desmancha na profundidade daquele olhar. Ordinariamente, o sol nasce todos os dias. O banho \u00e9 o catalisador das minhas epifanias. 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