{"id":201,"date":"2016-09-10T02:22:34","date_gmt":"2016-09-10T05:22:34","guid":{"rendered":"http:\/\/www.edgar.pro.br\/blog\/?p=201"},"modified":"2016-09-10T02:37:08","modified_gmt":"2016-09-10T05:37:08","slug":"apenas-uma-historia-de-maos-dadas","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.edgar.pro.br\/blog\/2016\/09\/10\/apenas-uma-historia-de-maos-dadas\/","title":{"rendered":"Apenas uma hist\u00f3ria de m\u00e3os dadas&#8230;"},"content":{"rendered":"<p>A playlist toca uma velha m\u00fasica do Genesis, o vento sopra forte, um uivo se faz ouvir pela fresta da janela, mas apesar da pouca dist\u00e2ncia, reluto em fech\u00e1-la por completo. Faz frio l\u00e1 fora e agora percebo que o c\u00e3o que sempre costumava latir, sumiu.<\/p>\n<p>Olho para a janela e vejo o meu reflexo. A imagem de mim mesmo se mistura a luminosidade \u00e2mbar das luzes do condom\u00ednio. Meu reflexo olha para mim ou eu olho para ele? Dif\u00edcil saber&#8230;<\/p>\n<p>Uma vez, num \u00f4nibus, voltando de uma viagem ao litoral, uma garota sentou-se ao meu lado. Sempre fui uma pessoas de poucos amigos, de poucas palavras. Eu vinha na poltrona do corredor. Muitos preferem a janela, mas quando se tem quase 1,90m, o corredor e a possibilidade de esticar as penas atrav\u00e9s dele \u00e9 um pequeno luxo. Eu havia embarcado na rodovi\u00e1ria.<\/p>\n<p>Naquela manh\u00e3 eu havia terminado um namoro. Na verdade, haviam terminado comigo. Namoro de ver\u00e3o. Ela vivia no litoral, eu no interior. Pass\u00e1vamos alguns fins de semana juntos. Tenho boas lembran\u00e7as daquele tempo, mas aquela era uma manh\u00e3 triste. No auge dos meus 17 anos, a vida era uma inc\u00f3gnita!<\/p>\n<p>A garota ficou com a poltrona da janela. Ajeitou sua mochila no compartimento de bagagens, pediu-me licen\u00e7a e sentou-se ao meu lado. Seu perfume era intenso. Tinha cabelos longos, lisos e que lhe ca\u00edam sobre os ombros. Num movimento delicado, puxou-os com os dedos para detr\u00e1s da orelha, movimento que me permitiu, nas r\u00e1pidas e discretas olhadelas de canto de olho, ver-lhe o perfil do rosto. Trajava jeans,  uma blusa branca com desenhos cujo padr\u00e3o eu n\u00e3o me recordo e trazia nas m\u00e3os um casaco cor de rosa. Ela era mais nova do que eu, talvez tivesse 15 ou 16 anos. Ciente da minha inabilidade em iniciar uma conversa trivial, apoiei a cabe\u00e7a no encosto do banco e mergulhei nos meus pensamentos.<\/p>\n<p>J\u00e1 iniciada a subida da serra, quando o \u00f4nibus entrou no primeiro t\u00fanel, levei um susto. Ela havia segurado, com for\u00e7a, minha m\u00e3o direita. Com a cabe\u00e7a projetada para o peito, ela tinha os olhos fechados. A press\u00e3o de sua m\u00e3o sobre a minha diminuiu quando o \u00f4nibus saiu do t\u00fanel. Ela soltou minha m\u00e3o, me olhou envergonhada e disse:<\/p>\n<p>&#8211; Desculpe, mas eu tenho medo desses t\u00faneis.<br \/>\n&#8211; Sem problemas \u2014 respondi sem saber ao certo o que dizer depois.<br \/>\n&#8211; Tem outros, n\u00e9?<br \/>\n&#8211; Acho que sim, pelos menos mais dois.<\/p>\n<p>Seu olhar procurava um ponto seguro, ela estava mais envergonhada do que eu.<\/p>\n<p>&#8211; De que voc\u00ea tem medo? \u2014 perguntei depois de alguns segundos de sil\u00eancio.<br \/>\n&#8211; N\u00e3o sei dizer, acho que \u00e9 porque fica escuro.<br \/>\n&#8211; Voc\u00ea n\u00e3o precisa ter medo, eu j\u00e1 desci e subi essa serra v\u00e1rias vezes.<\/p>\n<p>Antes que ela pudesse dizer algo, ela percebeu que outro t\u00fanel se aproximava. Seu olhar cruzou com o meu, havia ali um misto de ang\u00fastia e cumplicidade. Lhe ofereci a m\u00e3o. Ela fechou os olhos com um quase sorriso e o interior do \u00f4nibus escureceu. Feixes intercalados de luz amarelada, do interior do t\u00fanel, misturavam-se aos zumbidos e buzinas dos carros que vinham nas pistas paralelas ao \u00f4nibus. Nunca entendi porque as pessoas buzinavam dentro do t\u00fanel e a press\u00e3o da m\u00e3o daquela garota sobre a minha dava a entender que aquilo a incomodava.<\/p>\n<p>Aquele t\u00fanel era o mais longo, mas depois de um ou dois minutos, est\u00e1vamos novamente na claridade de uma manh\u00e3 cinza, como todas as manh\u00e3s na serra. Eu ainda segurava a m\u00e3o dela, mesmo sabendo que daquele ponto em diante, n\u00e3o haveria mais t\u00faneis. <\/p>\n<p>&#8211; Lugares escuros me d\u00e3o medo \u2014 ela quebrou o sil\u00eancio.<br \/>\n&#8211; Mas n\u00e3o h\u00e1 porque ter medo, o escuro \u00e9 apenas a aus\u00eancia de luz.<\/p>\n<p>Sempre fui metido a saber de tudo um pouco. Nessa \u00e9poca eu devorava livros sobre ocultismo e certamente devo ter tirado essa frase de algum deles.<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea deve me achar boba.<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o soube o que dizer, apenas movi a cabe\u00e7a em negativa. At\u00e9 ent\u00e3o, eu n\u00e3o havia reparado que, \u00e0 exce\u00e7\u00e3o de duas senhoras que vinham nos primeiros bancos, um senhor que estava duas poltronas \u00e0 frente e o pr\u00f3prio motorista, n\u00e3o havia mais ningu\u00e9m no \u00f4nibus. Era uma segunda-feira, talvez um dia de pouco movimento.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c0s vezes demoro para dormir, por causa do escuro. Fico imaginando coisas.<br \/>\n&#8211; Coisas?<br \/>\n&#8211; Sim, coisas ruins que existem no escuro, na noite&#8230;<br \/>\n&#8211; N\u00e3o existem coisas ruins no escuro \u2014 disse o menino que, 7 anos antes, se cagava nas cal\u00e7as de medo de ir do quarto ao banheiro no meio da madrugada! \u2014 J\u00e1 parou para pensar que enquanto voc\u00ea est\u00e1 dormindo, tanta coisa boa acontece?<br \/>\n&#8211; Que coisas boas?<br \/>\n&#8211; Hum \u2014 pense, animal \u2014 tem pessoas que trabalham durante a noite. M\u00e9dicos, policiais&#8230; o padeiro!<br \/>\n&#8211; O padeiro? \u2014 ela riu.<br \/>\n&#8211; U\u00e9! Quando voc\u00ea acorda e come seu p\u00e3o com manteiga, \u00e9 gra\u00e7as ao padeiro, que na noite, sem medo do escuro, est\u00e1 trabalhando! \u2014 me senti um g\u00eanio da argumenta\u00e7\u00e3o.<br \/>\n&#8211; Eu como p\u00e3o de forma! \u2014 ela exclamou sorrindo para mim.<\/p>\n<p>A playlist jogou um Paul Young na roda, fui catapultado para outras searas, outras lembran\u00e7as&#8230; de um beijo roubado em uma festa a qual eu e o meu fiel escudeiro n\u00e3o hav\u00edamos sido convidados, beijo roubado da dona da festa, da garota mais bonita, que fez de mim capacho&#8230; maldito Paul Young! Voltemos ao \u00f4nibus.<\/p>\n<p>Viemos o restante da viagem conversando trivialidades. J\u00e1 em Sorocaba, eu desceria no corpo de bombeiros, ela iria at\u00e9 a rodovi\u00e1ria, onde algu\u00e9m a esperava. Nos despedimos. Ela me acompanhou com os olhos enquanto eu desembarcava. J\u00e1 na cal\u00e7ada, antes que o farol abrisse e o \u00f4nibus zarpasse, ela abriu a janela e disse:<\/p>\n<p>&#8211; Meu nome \u00e9&#8230; <\/p>\n<p>O motorista acelerou o \u00f4nibus, fazendo um ru\u00eddo alto e o nome dela se perdeu entre a fuma\u00e7a preta que o escapamento jogou na minha cara quando ele fez a troca de marcha. At\u00e9 hoje ignoro o nome dela. Assim como ela deve ignorar o meu. Nunca mais a vi.<\/p>\n<p>No auge dos meus 43 anos, a vida segue sendo uma inc\u00f3gnita&#8230;<\/p>\n<p>E.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A playlist toca uma velha m\u00fasica do Genesis, o vento sopra forte, um uivo se faz ouvir pela fresta da janela, mas apesar da pouca dist\u00e2ncia, reluto em fech\u00e1-la por completo. Faz frio l\u00e1 fora e agora percebo que o c\u00e3o que sempre costumava latir, sumiu. Olho para a janela e vejo o meu reflexo. 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