{"id":221,"date":"2016-10-06T22:16:20","date_gmt":"2016-10-07T01:16:20","guid":{"rendered":"http:\/\/www.edgar.pro.br\/blog\/?p=221"},"modified":"2016-10-06T22:19:28","modified_gmt":"2016-10-07T01:19:28","slug":"tobias","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.edgar.pro.br\/blog\/2016\/10\/06\/tobias\/","title":{"rendered":"Tobias"},"content":{"rendered":"<p>Tobias olhou para os dois lados do galp\u00e3o. Primeiro o esquerdo, depois o direito. Certificou-se que nenhuma alma testemunharia sua covardia.<\/p>\n<p>H\u00e1 tempos Tobias era saco de pancadas na firma. Todos, sem exce\u00e7\u00e3o, zombavam dele. Uns descaradamente, outros, pelas costas, nas conversas ao redor da mesa do caf\u00e9. At\u00e9 mesmo dona Judith, a copeira, aquela doce senhorinha que, de hora em hora, renovava o caf\u00e9 nas garrafas t\u00e9rmicas. Caf\u00e9 que aromatizava o esc\u00e1rnio sobre Tobias. Justo ela, agora, puxava o corredor polon\u00eas das palavras. Palavras baixas, palavras que vertiam fel. Dona Judith, pensou Tobias. Seria ela, ou melhor, atrav\u00e9s dela, que Tobias se vingaria. Sim, seria o caf\u00e9 o ve\u00edculo da sua vingan\u00e7a. Caf\u00e9 que ele, Tobias, sequer gostava. Nunca fora dado aos fetiches do caf\u00e9. Nunca compreendeu direito as aglomera\u00e7\u00f5es e conversinhas em torno do caf\u00e9. Embora nunca tenha sido chamado a beb\u00ea-lo com os demais, achava-o ruim. Certa vez, sem que ningu\u00e9m o visse, bebericou uma ou duas gotas. Foi o suficiente para que o asco lhe tomasse. O caf\u00e9 lhe enjoava. N\u00e3o o de dona Judith, mas qualquer caf\u00e9. Talvez por isso, pelo desprezo ao caf\u00e9, tenha sido justamente o caf\u00e9 o seu eleito. Escrutinou a mem\u00f3ria em busca do hor\u00e1rio de maior movimento no canto do caf\u00e9. O canto asqueroso onde pessoas asquerosas diziam: At\u00e9 quando vamos aturar o Tobias? Vejam, l\u00e1 vem o Tobias, credo. Sai daqui, Tobias, ningu\u00e9m te quer. Jurandir, o porteiro, todos os dias esperava, de tocaia, a chegada de Tobias. T\u00e3o logo Tobias lhe dava \u00e0s costas, cuspia-lhe. N\u00e3o um cuspe qualquer, mas daqueles, catarrentos, cuja a viscosidade impregnava quem dele fosse alvo. E o alvo era sempre Tobias. \u00c0s vezes errava, \u00e0s vezes acertava. E em ambos os casos, Tobias seguia em sil\u00eancio, escravo de sua condi\u00e7\u00e3o. Quando o dono da firma estava por perto, todos se faziam de bons-mo\u00e7os, uns at\u00e9 verbalizavam, hip\u00f3critas, uma sauda\u00e7\u00e3o ao Tobias na frente de seu Cr\u00f3vis. Sim, Cr\u00f3vis, com erre mesmo. Na certa, um erro de registro. Seu Cr\u00f3vis nascera na ro\u00e7a, em tempos outros. Mas, calma l\u00e1, a hist\u00f3ria \u00e9 sobre o Tobias! E Tobias tinha a afei\u00e7\u00e3o de seu Cr\u00f3vis. Era o \u00fanico que se achegava no canto de Tobias, estrategicamente colocado, pelos demais, o mais distante poss\u00edvel da mesa do caf\u00e9. Mas seu Cr\u00f3vis, depois de percorrer o galp\u00e3o, recolhia-se em seu escrit\u00f3rio, contabilizar a empresa. Tobias, longe de seu protetor, voltava a ser alvo dos olhares maldosos, das palavras virulentas. O caf\u00e9! Tobias arquitetava seu plano h\u00e1 dias. O melhor hor\u00e1rio: ap\u00f3s o almo\u00e7o. Ao meio-dia todos se ausentavam para comer no restaurante pr\u00f3ximo. Todos, menos dona Judith, que almo\u00e7ava \u00e1s treze horas. Havia uma pequena janela de tempo, cinco minutos. Era o tempo entre dona Judith deixar o caf\u00e9 p\u00f3s-almo\u00e7o coando na cozinha e ir buscar as garrafas t\u00e9rmicas na mesa do caf\u00e9. A maioria, logo ap\u00f3s a volta do almo\u00e7o, j\u00e1 rondava o canto do caf\u00e9. A porta da cozinha n\u00e3o se via de l\u00e1. Tobias teria exatos cinco minutos para sair do seu canto sem ser percebido, adentrar na cozinha e realizar sua vendetta.<\/p>\n<p>Tobias olhou para os dois lados do galp\u00e3o. Primeiro o esquerdo, depois o direito. Certificou-se que nenhuma alma testemunharia sua covardia. Caminhou sereno at\u00e9 uma pilha de caixas e esperou dona Judith sair da cozinha em busca da garrafa t\u00e9rmica. Fora do campo de vis\u00e3o de todos, Tobias entrou pela porta, saltou sobre a mesa, saltou para a pia e, diante do coador de pano que vertia o negro l\u00edquido para um canec\u00e3o, ergueu a pata traseira e, com uma fei\u00e7\u00e3o quase humana, com um sorriso de Monalisa, diriam, deixou verter sua urina, que ele segurava desde a manh\u00e3, para dentro do coador. Contou mentalmente os minutos e, ainda que lhe restassem mais alguns mililitros, saltou da pia direto ao ch\u00e3o, esgueirou-se pela porta e, novamente oculto pela pilha de caixas, passou despercebido por dona Judith, que cantarolava uma antiga can\u00e7\u00e3o enquanto trazia as garrafas t\u00e9rmicas vazias. Seguindo o ritual de sempre, dona Judith encheu ambas as garrafas, em uma delas, antes, adicionou as habituais colheradas de a\u00e7\u00facar, afinal, era preciso agradar ambos os p\u00fablicos, os da do\u00e7ura e os da amargura. Garrafas cheias, voltou \u00e0 mesa do caf\u00e9, sabore\u00e1-lo com os demais colegas.<\/p>\n<p>Tobias ainda era filhote quando seu Cr\u00f3vis o resgatou. Fora vitima da crueldade de uma bando de adolescentes. Haviam queimado-o pl\u00e1stico derretido, dado-lhe algumas pancadas com galhos de \u00e1rvore e largado \u00e0 beira da morte \u00e0 beira da estrada. Perdera mais da metade dos pelos, tinha uma orelha partida ao meio e faltava-lhe um olho. Desde Seu Cr\u00f3vis deu-lhe os cuidados necess\u00e1rios e um canto para ficar. E, do seu canto, agora, Tobias via seus algozes maldizendo o caf\u00e9 de dona Judith. Mas que porcaria \u00e9 essa? Experimenta isso, sua velha louca. O qu\u00ea voc\u00ea colocou aqui? Em poucos minutos, dona Judith, a doce senhorinha que, de hora em hora, renovava o caf\u00e9 nas garrafas t\u00e9rmicas, sentiu na pele a maledic\u00eancia da qual somente um bicho humano \u00e9 capaz. Tobias acompanhou-a com os olhos at\u00e9 a cozinha. Ouviu-a chorar e lamentar, entre suspiros, que aquilo, a forma como fora tratada, n\u00e3o se fazia nem com um cachorro. Seu Cr\u00f3vis, que descia para o caf\u00e9, foi alertado. Estava um lixo, tinha gosto de urina, disseram-lhe. A caminho da cozinha, pronto a confortar dona Judith, seu Cr\u00f3vis percebeu que Tobias n\u00e3o estava em seu canto. Chamou-o uma vez. Duas vezes. Tr\u00eas vezes. Nada.<\/p>\n<p>Tobias, livre de sua covardia, havia ganhado o mundo, embora ainda estivesse a apenas dois quarteir\u00f5es do galp\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tobias olhou para os dois lados do galp\u00e3o. Primeiro o esquerdo, depois o direito. Certificou-se que nenhuma alma testemunharia sua covardia. 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