{"id":245,"date":"2016-11-29T20:02:24","date_gmt":"2016-11-29T23:02:24","guid":{"rendered":"http:\/\/www.edgar.pro.br\/blog\/?p=245"},"modified":"2016-11-29T20:02:24","modified_gmt":"2016-11-29T23:02:24","slug":"ponto-de-fuga","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.edgar.pro.br\/blog\/2016\/11\/29\/ponto-de-fuga\/","title":{"rendered":"Ponto de fuga"},"content":{"rendered":"<blockquote><p>\nPorque cada in\u00edcio<br \/>\n\u00e9 s\u00f3 continua\u00e7\u00e3o,<br \/>\ne o livro das ocorr\u00eancias<br \/>\nest\u00e1 sempre aberto ao meio.<\/p>\n<p>Wislawa Szymborska\n<\/p><\/blockquote>\n<p>N\u00e3o se engane, ponto de fuga \u00e9 onde as coisas se encontram&#8230; l\u00e1 na perspectiva, o ponto de fuga \u00e9 aquele lugar para o qual retas paralelas convergem. T\u00e1 certo, voc\u00ea vai me dizer que as retas paralelas nunca se encontram, afinal, por serem paralelas, tendem ao infinito sem nunca se encontrarem, dir\u00e1 ainda que o ponto de fuga \u00e9 um elemento representativo de um espa\u00e7o tridimensional numa superf\u00edcie bidimensional, bl\u00e1, bl\u00e1, bl\u00e1&#8230; \u00e9, talvez voc\u00ea tenha raz\u00e3o! Talvez n\u00e3o&#8230; ser\u00e1?<\/p>\n<p>Bem, pessoas n\u00e3o s\u00e3o objetos geom\u00e9tricos. Pessoas se encontram. Pessoas se desencontram. \u00c0s vezes os pontos de fuga s\u00e3o exatamente o que um mal entendedor de geometria entende, uma porta de escape, uma brecha no espa\u00e7o para, como dizia o le\u00e3o naquele antigo desenho, um sa\u00edda estrat\u00e9gica pela esquerda (calma, amigo, nada que ver com pol\u00edtica).<\/p>\n<p>Nessa longa estrada da vida j\u00e1 me desencontrei diversas vezes. Diversas vezes perdi o rumo, fugi. Noutras a vida simplesmente me p\u00f4s para correr. E, sejamos honestos, houve vezes em que eu fiquei inerte, vendo a vida passar t\u00e3o r\u00e1pido quanto o trem observado num dos exemplos te\u00f3ricos daquele cientista descabelado, o Einstein. Tudo \u00e9 relativo. Por isso, a perspectiva na geometria necessita de um ponto de fuga, um local para onde tudo converge&#8230;<\/p>\n<p>Bom, pessoas encontram-se. \u00c0s vezes, pessoas v\u00e3o de encontro umas \u00e1s outras. Noutras vezes, v\u00e3o ao encontro. Lembro daquela aula no mestrado, aquela na qual o professor explicava a diferen\u00e7a de ir de encontro e de ir ao encontro. Ele fazia gestos did\u00e1ticos com as m\u00e3os, enfatizando que ir de encontro era chocar-se e, por outro lado, ir ao encontro era unir-se. Eu, l\u00e1 no fundo da sala, pensava &#8220;mas isso \u00e9 t\u00e3o \u00f3bvio, por qu\u00ea ele est\u00e1 explicando isso?&#8221;. Ele queira mostrar que no estudo de teorias e pensadores, existem ideias que v\u00e3o de encontro e ideias que v\u00e3o ao encontro&#8230; pessoas tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>J\u00e1 bati de frente com muito caboclo por essas bandas. Houve um tempo em que nos degladi\u00e1vamos atr\u00e1s de pipas munidos de nossas latas de \u00f3leo de cozinha, verdadeiras luvas de boxe met\u00e1licas capazes de fazer sorrir os dentistas do bairro com tantos dentes quebrados nas bocas de moleques arruaceiros. Eu era um deles. J\u00e1 fui de encontro com gente na escola, no trabalho, na vida&#8230; hoje ando devagar, atento \u00e0s manhas e \u00e0s manh\u00e3s. Se for pra dar de cara, que seja a 5km\/h e sem latas de \u00f3leo Lizza.<\/p>\n<p>J\u00e1 encontrei muita gente que me fez sofrer, gente que me fez chorar. Acredite, agora eu sei. Mas nem tudo na vida s\u00e3o dores. J\u00e1 encontrei gente fant\u00e1stica. Gente incr\u00edvel. Gente extraordin\u00e1ria. Algumas aquela dama da foice levou. Outras simplesmente est\u00e3o por ai, em outras paisagens. Pois a vida nos leva, nos traz. Lembre-se, meu caro, minha cara, para cada ponto de fuga, h\u00e1 um ponto de vista. Vemos a cena de um \u00e2ngulo e, se o \u00e2ngulo muda, muda o ponto de fuga. O lugar para onde tudo converge \u00e9 relativo. Santo Einstein!<\/p>\n<p>L\u00e1 na f\u00edsica do muito pequeno, das coisas qu\u00e2nticas, uns caras com nomes dif\u00edceis disseram sobre a incerteza. O ponto de fuga pode fugir \u00e0s regras. Talvez nada convirja (confesso, precisei consultar o dicion\u00e1rio para conjugar o verbo convergir). Talvez o ponto de fuga seja s\u00f3 um artif\u00edcio, uma esperan\u00e7a de que l\u00e1 onde termina o arco-\u00edris haja um pote de ouro. Que retas paralelas um dia se cruzem, ainda que para isso tenhamos que abdicar de Euclides e flertar com Boole. Ainda que tenhamos que descartar Descartes e salpicar a vida de Morin&#8230; j\u00e1 disse o Pessoa, citando Sagres: viver n\u00e3o \u00e9 preciso!<\/p>\n<p>Bom, voc\u00ea deve estar pensando &#8220;para onde tudo isso converge?&#8221;, j\u00e1 que o t\u00edtulo do palavr\u00f3rio de hoje \u00e9 Ponto de Fuga&#8230; pois bem, gafanhoto, converge para os olhos castanhos que me fitam em manh\u00e3s pregui\u00e7osas. Manh\u00e3s cheias de manha, de caf\u00e9 de c\u00e1psula em canecas roubadas (uma delas, ao menos). Minha reta um dia cruzou com a dela e, pode espernear o quanto quiser, seguem paralelas e enroscadas, como o cabo de energia do secador dela, que eu consertei dia desses. Entrela\u00e7adas num emaranhado qu\u00e2ntico. Unidas por uma for\u00e7a que nem Einstein e nem sua gravidade explicam. Meu ponto de fuga \u00e9 uma pessoa. E nela eu converjo, cortejo, convivo, conjugo, comungo, completamente nem ai com a geometria ou com a f\u00edsica ou com as grandes quest\u00f5es que assolam a humanidade.<\/p>\n<p>Duvida? Bem, est\u00e1 tudo l\u00e1, no livro das ocorr\u00eancias&#8230; \ud83d\ude09<\/p>\n<p>E.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Porque cada in\u00edcio \u00e9 s\u00f3 continua\u00e7\u00e3o, e o livro das ocorr\u00eancias est\u00e1 sempre aberto ao meio. Wislawa Szymborska N\u00e3o se engane, ponto de fuga \u00e9 onde as coisas se encontram&#8230; l\u00e1 na perspectiva, o ponto de fuga \u00e9 aquele lugar para o qual retas paralelas convergem. 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