{"id":65,"date":"2015-03-29T22:21:05","date_gmt":"2015-03-30T01:21:05","guid":{"rendered":"http:\/\/www.edgar.pro.br\/blog\/?p=65"},"modified":"2015-03-29T22:48:03","modified_gmt":"2015-03-30T01:48:03","slug":"envelhecer-e-opcional","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.edgar.pro.br\/blog\/2015\/03\/29\/envelhecer-e-opcional\/","title":{"rendered":"Envelhecer \u00e9 opcional!"},"content":{"rendered":"<p>Mais um ano que se passa. H\u00e1 quem conte-os em primaveras, outonos, ver\u00f5es ou invernos. O fato \u00e9 que eu j\u00e1 vivi 42 deles. Quarenta e dois. Pode parecer estranho, mas eu n\u00e3o tenho quarenta e dois anos. Em certos aspectos, tenho mais, pois me valho de todo um conhecimento acumulado ao longo de s\u00e9culos. Meus amigos fil\u00f3sofos, com quem sempre tomo uma cerveja ou um caf\u00e9, viveram em \u00e9pocas outras. H\u00e1 dias em que pela manh\u00e3 bato um papo com Arist\u00f3teles e, logo mais, \u00e0 noite, proseio com Paulo Freire. Vou do s\u00e9culo IV a.C ao s\u00e9culo XX d.C. em poucas p\u00e1ginas. Trago comigo um saber que ultrapassa meus meros 42 anos de exist\u00eancia. As vezes me sinto um highlander, que na embriaguez com as palavras e ideias de tantos outros que antes de mim viveram, viveu in\u00fameras eras. Em outros momentos, tenho menos. 42 anos parece algo distante dos meus jeans, t\u00eanis sujos e camisetas de banda. Culpa da Educa\u00e7\u00e3o, essa profiss\u00e3o-paix\u00e3o que me d\u00e1 doses di\u00e1rias de juventude. Trabalhar com as cabe\u00e7as pensantes nos bancos universit\u00e1rios, nas escolas de ensino fundamental ou m\u00e9dio, nos cursos preparat\u00f3rios, me coloca em contanto com gente nova, gente jovem. Novas porque me eram desconhecidas, jovens porque escolheram n\u00e3o envelhecer.<\/p>\n<p>Idade \u00e9 um conceito. Um marco referencial. \u00d3bvio que h\u00e1 um aspecto cronol\u00f3gico, a medi\u00e7\u00e3o do tempo f\u00edsico, aquele certo n\u00famero de voltas que a Terra deu ao redor do Sol. Voltas que embalam nossa jornada neste p\u00e1lido ponto azul. Voltas, reviravoltas, idas e vindas. Os anos passam, sempre. Mas a idade \u00e9 um conceito l\u00edquido, para evocar outro dos meus interlocutores preferidos, o Bauman. As vezes vejo textos idiotas que dizem que mulheres de 30 anos s\u00e3o isso ou aquilo. Como se ter trinta anos fosse condi\u00e7\u00e3o para ser melhor que algu\u00e9m de 18, 7 ou 76&#8230; As balzaquianas que me desculpem, conhe\u00e7o gente de trinta que \u00e9 vazia feito saco de pipoca em fim de sess\u00e3o, conhe\u00e7o gente de 13 com uma quase clarivid\u00eancia. Idade \u00e9 um conceito, n\u00e3o um fato. Julgar algu\u00e9m pela idade \u00e9 diminuir a pessoa a um n\u00famero, s\u00f3 isso.<\/p>\n<p>Aos 13 anos eu fui atropelado. Culpa minha. Atravessei a rua sem olhar e POW! Um fusca me lan\u00e7ou de cara no asfalto, rachou meu cr\u00e2nio, quebrou meu omoplata, ralou meus ombros e joelhos. Ganhei uma cicatriz sobre os l\u00e1bios e perdi a camiseta mais legal que eu tinha nessa \u00e9poca. Naqueles dias de recupera\u00e7\u00e3o, algo mudou. Nada m\u00edstico, nada transcendente, mas ser abalroado por um VW Sedan 1300 n\u00e3o \u00e9 um evento sem sequelas. Dif\u00edcil explicar, mas depois de ser atropelado, eu acordei do meu sono dogm\u00e1tico, mas isso \u00e9 assunto para outro momento, voltemos aos 42.<\/p>\n<p>Quando eu fazia minha primeira gradua\u00e7\u00e3o, em Letras, eu era s\u00f3 mais um rapaz latino-americano sem dinheiro no banco. Sem saber, eu era um sartriano que ainda n\u00e3o tinha lido Sartre. Me pergunto como pude chegar aos 20 anos sem sequer ouvir falar em Sartre? Culpa da escola, culpa da escola da minha \u00e9poca. Eu n\u00e3o tive aulas de filosofia quando estava no ensino fundamental ou m\u00e9dio, gra\u00e7as ao governo militar de 1964, at\u00e9 o meu ingresso na universidade, filosofia era algo distante da minha vida escolar. Sartre sempre foi um fil\u00f3sofo que eu levei aos meus alunos de ensino m\u00e9dio, para que eles n\u00e3o fossem tolhidos como eu fui! At\u00e9 hoje tenho que justificar porque eu larguei uma carreira na Inform\u00e1tica para ser professor de Filosofia. Outra coisa dif\u00edcil de explicar, outro assunto para outro momento. Voltemos aos 42.<\/p>\n<p>Com 30 anos eu j\u00e1 tinha ido ao inferno e voltado algumas vezes. Sim, minha vida pode parecer f\u00e1cil. Cerveja, duas f\u00e9rias por ano e mais cerveja. \u00c9, merm\u00e3o, voc\u00ea v\u00ea a vers\u00e3o <em>Director&#8217;s Cut<\/em>, n\u00e3o o <em>Making-Off<\/em>! A vida me deu rasteiras, e eu dei muita pernada 3&#215;4 sem me despentear. Dei algumas rasteiras, <em>mea culpa<\/em>, n\u00e3o sou perfeito. Pedi menos desculpas do que deveria, apanhei mais do que merecia. Ou n\u00e3o, falamos de um ponto de vista, sempre. Ao longo dos 30 eu fui e voltei do inferno v\u00e1rias vezes. Algumas vezes, em p\u00fablico, mas na maioria das vezes, sozinho. Dif\u00edcil explicar, j\u00e1 sabe, fica pra outro momento. Voltemos aos 42.<\/p>\n<p>Com 40 eu nasci. A vida come\u00e7ou aos 40. \u00c9 o que dizem. Com 40 eu me perdi. Com 40 eu entendi que ter 13, 20, 30 ou 40, d\u00e1 no mesmo. Erramos, acertamos. Erramos mais e mais feio, pois a experi\u00eancia conduz a perfei\u00e7\u00e3o. Com 80 serei mestre em fazer cagadas. Com 90 serei um buda iluminado, de jeans e t\u00eanis sujos, camiseta do KISS e mais incertezas que certezas. Menos acertos que erros. Mas calma, errar \u00e9 humano. Seguir em frente \u00e9 o \u00fanico caminho. As vezes sento para falar com Arist\u00f3teles, para entender como a vida funciona. Noutras vezes, sento com Bauman, com Rousseau, Raul Seixas e, pasme, at\u00e9 com Xavantinho e Pena Branca, ou seria o contr\u00e1rio? Tem dias que Sartre \u00e9 meu melhor amigo. Tem dias que meros mortais s\u00e3o a melhor sa\u00edda. Tem dias que os Rockers me salvam. Tem dias que a Larissa Outono me salva, tem dias que o Andrew me salva. Ah se n\u00e3o fossem os caf\u00e9s com o Felipe Telo. Fora todas as vezes que a Laura me salvou sem saber (e salvar\u00e1 muitas mais!). Houve dias que meus irm\u00e3os me salvaram. Sem falar nos meus pai e m\u00e3e, que salvaram mais do que precisavam. Dif\u00edcil explicar&#8230; deixemos os 42 de lado.<\/p>\n<p>Idade \u00e9 um conceito. N\u00e3o se apegue a ela. Se apegue \u00e0 vida, pois a vida \u00e9 muito mais que a soma das voltas e reviravoltas que este p\u00e1lido ponto azul deu ao redor do Sol. A vida \u00e9 aqui, \u00e9 agora.<\/p>\n<p>At\u00e9 os 43!<\/p>\n<p>Edgar<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mais um ano que se passa. H\u00e1 quem conte-os em primaveras, outonos, ver\u00f5es ou invernos. O fato \u00e9 que eu j\u00e1 vivi 42 deles. Quarenta e dois. Pode parecer estranho, mas eu n\u00e3o tenho quarenta e dois anos. Em certos aspectos, tenho mais, pois me valho de todo um conhecimento acumulado ao longo de s\u00e9culos. 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