{"id":78,"date":"2015-04-07T19:58:35","date_gmt":"2015-04-07T22:58:35","guid":{"rendered":"http:\/\/www.edgar.pro.br\/blog\/?p=78"},"modified":"2016-11-03T11:52:40","modified_gmt":"2016-11-03T14:52:40","slug":"por-que-os-alunos-colam","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.edgar.pro.br\/blog\/2015\/04\/07\/por-que-os-alunos-colam\/","title":{"rendered":"Por que alunos colam?"},"content":{"rendered":"<p>L\u00e1 estou eu na sala dos professores, ouvindo uma conversa tensa entre professores de um curso qualquer. A tens\u00e3o gira ao redor de uma prova que foi fotografada e distribu\u00edda ao alunos de outro per\u00edodo. A maracutaia foi descoberta, na verdade intu\u00edda, a partir dos assombrosos 99% de notas m\u00e1ximas na referida avalia\u00e7\u00e3o. Propostas acaloradas pipocam na roda: do confisco de celulares e demais traquitanas tecnol\u00f3gicas ao uso de canetas transparentes, provas cifradas pelo n\u00famero do RA e, por que n\u00e3o, colocar os alunos no gin\u00e1sio, mantendo-os a 5 metros de dist\u00e2ncia uns dos outros. A cena seria c\u00f4mica n\u00e3o fosse o real desespero daqueles professores. Inibir a cola a qualquer custo. De soslaio, eu observo a prova. 20 testes de m\u00faltipla escolha e duas quest\u00f5es dissertativas.<\/p>\n<p>Existem in\u00fameras teorias e metodologias que d\u00e3o conta, ou n\u00e3o, de discutir a avalia\u00e7\u00e3o escolar. N\u00e3o vou entrar nessa seara. Por mais que eu tenha uma postura muito clara sobre o que vem a ser uma avalia\u00e7\u00e3o escolar, vou me abster de comentar. Vamos por outro caminho, vamos analisar essa criatura que habita as salas de aula, este ser que, ausente de luminosidade, rasteja no obscuro mundo da educa\u00e7\u00e3o: o aluno. Alunos do tipo universit\u00e1rio, para fazer o recorte. O que s\u00e3o? Onde vivem? O qu\u00ea comem? Hoje, neste blog&#8230;<\/p>\n<p>Aluno \u00e9 o &#8220;sem luz&#8221;. Etimologicamente, a palavra aluno designa aquele que n\u00e3o tem luz pr\u00f3pria, logo, necessita de um mestre, um buda iluminado, um guia para a luz. Venha Carolyne, venha para a luz. Feito criaturas do limbo, poltergheisters aprisionados nas telas de seus aparatos tecnoil\u00f3gicos, almas penadas e desencarnadas que n\u00e3o sabem exatamente onde est\u00e3o, o que s\u00e3o e para onde v\u00e3o.<\/p>\n<p>O que leva um aluno, algu\u00e9m que em tese est\u00e1 buscando uma forma\u00e7\u00e3o profissional, uma qualifica\u00e7\u00e3o que lhe renda melhores cargos, maiores sal\u00e1rios ou, ainda que seja o caso, ainda que seja raro, satisfa\u00e7\u00e3o pessoal, a colar numa prova? Pois, vejamos, a cola comporta duas dimens\u00f5es: a menor delas, enganar o professor; a maior, enganar-se a si mesmo. A pergunta aqui proposta n\u00e3o comporta uma resposta simples. Meu amigo e xar\u00e1, Edgar Morin, diria que a coisa \u00e9 complexa.<\/p>\n<p>Enganar, trapacear, burlar. Todos verbos conjugados no dia a dia. \u00c9 poss\u00edvel que se conjugue-os, em certas circunst\u00e2ncias, num sentido positivo, como se fosse licito enganar. Afinal, enganamos as crian\u00e7as desde a tenra idade com mentiras como Papai Noel, Coelho da P\u00e1scoa etc. Alguns dir\u00e3o n\u00e3o se tratar de engano, mas apenas de uma fabula\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria ao desenvolvimento infantil. Pol\u00eamicas \u00e0 parte, desde cedo aprendemos a enganar, a trapacear, a burlar. Trapaceamos nossos pais quando fingimos uma dor de barriga para n\u00e3o ir a escola, coisa que aprendemos com nossos pais, quando a mam\u00e3e compra um mimo na nossa frente e diz &#8220;n\u00e3o conte para o seu pai&#8221;, ai nasce o v\u00ednculo conivente, conviniente, c\u00famplice com o engodo. Salutar, em certo ponto. Nocivo quando desmedido. Voltemos \u00e0 pergunta inicial.<\/p>\n<p>Por qu\u00ea alunos colam em provas que deveriam ser instrumentos de avalia\u00e7\u00e3o de sua performance escolar. N\u00e3o seria de sumo interesse do aluno saber se ele est\u00e1 realmente aprendendo, se \u00e9 que ele j\u00e1 n\u00e3o o sabe. Seria do interesse dos professores saber se est\u00e3o conseguindo ensinar? Seria a prova o instrumento adequado para isso? Opa, eu disse que n\u00e3o iria entrar por essa seara&#8230; Desculpem-me.<\/p>\n<p>Alunos colam porque seres humanos colam. E aqui cabe definir o que \u00e9 colar. Acima, de forma inocente, dei a entender que colar \u00e9 trapacear. Vejamos, se entendermos o verbo colar como o ato de consultar fonte il\u00edcita de conhecimento, a saber, qualquer forma de conhecimento em suporte f\u00edsico (papel, borracha, celular), bem como em suporte intang\u00edvel, como a voz sussurrada do colega detr\u00e1s, as piscadelas mnem\u00f4nicas da garota do canto superior esquerdo, significando cada uma delas uma alternativa poss\u00edvel ou, ainda, o contato paranormal com entidades divinas. Se cada uma dessas formas de cola representa uma forma de trapa\u00e7a, a cola est\u00e1 condenada e os coladores dever\u00e3o arder no fogo dos infernos.<\/p>\n<p>Por outro lado, se considerarmos a cola como o ato de recuperar algo que, submetido ao escrut\u00ednio da raz\u00e3o, pode nos ajudar a resolver uma quest\u00e3o, seja ela de ordem te\u00f3rica, pr\u00e1tica ou espiritual, ent\u00e3o a cola \u00e9 uma pr\u00e1tica milenar, inscrita no DNA humano desde os prim\u00f3rdios, desde as cavernas, cen\u00e1rio das primeiras formas de registro de nosso conhecimento. Pierre L\u00e9vy, um fil\u00f3sofo que se mete a escrever sobre tecnologias, certa vez me disse, numa agrad\u00e1vel tarde de ver\u00e3o, que as tecnologias s\u00e3o extens\u00f5es de n\u00f3s mesmos. Um caderno, daqueles que voc\u00ea guarda as senhas do banco, os telefones da tia Joana, as receitas de bolo da vov\u00f3 Jurema ou os n\u00fameros fiscais da mercearia do seu Domingos, um caderno \u00e9 um suporte tecnol\u00f3gico para a nossa mem\u00f3ria. Tecnol\u00f3gico porque transformar \u00e1rvores em folhas de papel n\u00e3o \u00e9 magia, \u00e9 tecnologia! Suporte porque nos ajuda, nos auxilia, guarda coisas que deixadas a cargo da mem\u00f3ria, poderiam se perder. Oras, ser\u00e1 que eu preciso me delongar? N\u00e3o, voltemos \u00e0 pergunta de um milh\u00e3o de reais.<\/p>\n<p>Alunos colam porque colar \u00e9 inteligente. Ai ai ai&#8230; Vejamos, usar suportes tecnol\u00f3gicos para auxiliar nossa mem\u00f3ria \u00e9 uma a\u00e7\u00e3o inteligente. O caderno n\u00e3o pensa por n\u00f3s. O livro de receitas da vov\u00f3 Jurema n\u00e3o cozinha por n\u00f3s. Ao inv\u00e9s de avaliar a capacidade de memoriza\u00e7\u00e3o dos alunos, as provas deveriam avaliar suas capacidades de, diante de m\u00faltiplos suportes tecnol\u00f3gicos, raciocinar sobre diversas fontes, teorias, dados e, analisando-os, comparando-os, confrontando-os, resolver problemas complexos, que demandam mais que saber a f\u00f3rmula da \u00e1gua, o teorema de Pit\u00e1goras ou em que dia, m\u00eas e ano Dom Pedro II teve uma caganeira \u00e0s margens do Ipiranga. Ai ai ai, falei demais&#8230;<\/p>\n<p>Nessa mesma noite ajudei um colega professor a aplicar prova, a dele, com consulta, em duplas, com quest\u00f5es de compreens\u00e3o e an\u00e1lise dos conte\u00fados tratados em aula junto dos conhecimentos trazidos pelos alunos. Todos colaram, todos consultaram seus cadernos, colegas, livros-texto, pais de santo e, sem que eles mesmos notassem, uma certa luminosidade se formou nos seus entornos&#8230; Deixaram de ser alunos!!<\/p>\n<p>At\u00e9 a pr\u00f3xima, poovooo.<\/p>\n<p>Edgar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>L\u00e1 estou eu na sala dos professores, ouvindo uma conversa tensa entre professores de um curso qualquer. A tens\u00e3o gira ao redor de uma prova que foi fotografada e distribu\u00edda ao alunos de outro per\u00edodo. A maracutaia foi descoberta, na verdade intu\u00edda, a partir dos assombrosos 99% de notas m\u00e1ximas na referida avalia\u00e7\u00e3o. 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