{"id":251,"date":"2017-01-10T22:36:30","date_gmt":"2017-01-11T01:36:30","guid":{"rendered":"http:\/\/www.edgar.pro.br\/blog\/?p=251"},"modified":"2017-01-10T22:46:26","modified_gmt":"2017-01-11T01:46:26","slug":"voce-e-milionario","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.edgar.pro.br\/blog\/2017\/01\/10\/voce-e-milionario\/","title":{"rendered":"Voc\u00ea \u00e9 milion\u00e1rio?"},"content":{"rendered":"<p>Voc\u00ea \u00e9 milion\u00e1rio, perguntou-me o menino que brincava no parque. Milion\u00e1rio, eu? Porque voc\u00ea acha isso, perguntei ao garoto. Esse seu \u00f3culos \u00e9 de milion\u00e1rio, respondeu com naturalidade. Eu estava com um desses \u00f3culos de bancas de shopping, longe de ser de milion\u00e1rio&#8230; a n\u00e3o ser que o menino estivesse se referindo ao Milion\u00e1rio da dupla sertaneja! Ele estava s\u00f3, brincava com um galho fino de algum arbusto. Voc\u00ea mora no meu pr\u00e9dio, eu disse ao garoto. Naquele, apontou com o arbusto enquanto seu rosto tentava fugir do sol que o ofuscava. Sim, aquele. Voc\u00ea \u00e9 meu vizinho. \u00c9, eu j\u00e1 te vi por l\u00e1. Bom, eu vou embora, e estendi a m\u00e3o em sinal de cumprimento. Voc\u00ea vai dar uma volta, disse ele apertando dois de meus dedos, pois sua pequena m\u00e3o n\u00e3o dava conta da minha. Sim, vou andar um pouco. Tchau. Tchau.<\/p>\n<p>Caminhei alguns metros at\u00e9 a portaria pensando que um dia eu j\u00e1 fui como aquele garoto. Uma simples crian\u00e7a brincando sozinha num canto qualquer. Uma crian\u00e7a com uma imagina\u00e7\u00e3o milion\u00e1ria. Talvez ele tenha visto em algum filme ou novela algum bacana bom de grana com um \u00f3culos igual o meu, talvez ele apenas tenha inventado de usar a palavra milion\u00e1rio com o primeiro transeunte que desse a sorte de cruzar a luta de espadas que ele encenava com o pequeno galho pouco antes de me notar. Talvez ele apenas quisesse puxar papo. H\u00e1, ainda, a chance de um LP de Milion\u00e1rio e Jos\u00e9 Rico estar dando sopa na casa de uma das av\u00f3s. Muitas possibilidade&#8230;<\/p>\n<p>Possibilidades. \u00c9, um dia eu j\u00e1 fui como ele. Hoje sou o vizinho antissocial que mal sabe o nome das pessoas que moram no meu andar. Hoje sou o professor que nunca guarda o nome dos seus alunos. Hoje sou apenas mais um dentre milhares de pequenos escritores que de quando em quando joga na grande rede um punhado de letras, um bocadinho de palavras. As trilhas seguidas at\u00e9 aqui foram tantas, mas n\u00e3o era disso que eu quero falar.<\/p>\n<p>Certa vez, caminhando pelas areias da praia de Mongagu\u00e1, encontrei uma garota que havia estudado comigo em alguma s\u00e9rie que me escapa neste momento. Eram uma \u00e9poca dif\u00edcil para mim, por sorte, minha tia\/madrinha me deixava ficar na sua casa no litoral enquanto ela viajava com o filho. \u00c9poca em que eu n\u00e3o tinha a menor ideia do meu futuro. P\u00e9ssimo aluno, sem muitos amigos, sem planos ou projetos claros para o futuro, eu apenas existia. Naquela tarde, caminhando sem pensar em nada, catando uma ou outra concha quebrada na areia, esbarrei com ela. Oi. Oi. Passando as f\u00e9rias aqui tamb\u00e9m? Pois \u00e9. Eu estou naquele pr\u00e9dio, e voc\u00ea. Ali. Vai na feirinha hoje a noite? Acenei que sim com a cabe\u00e7a. Legal, a gente se v\u00ea, ent\u00e3o. Ela se aproximou e beijou meu rosto. Tchau. Tchau.<\/p>\n<p>Dias atr\u00e1s, um amigo me indicou para umas aulas. Respondi o email. Marcou-se uma reuni\u00e3o. \u00c9 engra\u00e7ado como mesmo depois de 21 anos de sala de aula, eu ainda fico nervoso em uma entrevista. Boa tarde, apertos de m\u00e3o. Me fale da sua experi\u00eancia. J\u00e1 fiz um pouco disso, um pouco daquilo. Esta \u00e9 a ementa. Tranquilo, j\u00e1 leciono esses conte\u00fados. As aulas s\u00e3o tal dia. Puxa, tal dia n\u00e3o posso. Ah, que pena, quer\u00edamos que voc\u00ea trabalhasse conosco. Quem sabe semestre que vem. Entramos em contato. At\u00e9 logo. At\u00e9 logo.<\/p>\n<p>Um dia eu acordei convicto de uma coisa. Coisa besta, obviamente. Fui at\u00e9 uma loja de brinquedos e compre um jipe de controle remoto. Mal a luz da bateria mudou de vermelha para verde e l\u00e1 estava eu, no quintal, fazendo o jipe zero-bala capotar no concreto, na grama, no porcelanato da sala. Olhei para a c\u00e2mera digital e um &#8220;e se&#8221; iluminou-se na mente. Um pouco de durex e fita isolante e o jipe agora gravava o seu trajeto. Eu acho que o video ainda est\u00e1 no youtube&#8230;<\/p>\n<p>Ela desceu as escadas em sil\u00eancio. A fam\u00edlia toda dormia nos quartos de cima, eu me ajeitava com o sof\u00e1 da sala. Era dia de eu ir embora. Ela tinha uma l\u00e1grima nos olhos. Eu sabia, aquela seria a \u00faltima vez que eu dormiria naquele sof\u00e1. Tudo passa, diria Her\u00e1clito, mas nessa \u00e9poca eu ainda n\u00e3o o conhecia. Fiquei na rodovi\u00e1ria, com cara de choro. Perdi o primeiro \u00f4nibus. O pr\u00f3ximo s\u00f3 \u00e0s 16h. Fui andar pela orla.<\/p>\n<p>Uma madrugada de conversa mediados por telas e teclados. Uma outra madrugada em meio a outras centenas de pessoas, igualmente de conversa. Na primeira madrugada falamos de coisas como se fossemos amigos de longa data. Na segunda, tent\u00e1vamos n\u00e3o demonstrar que era, tecnicamente, a segunda vez que nos v\u00edamos. Hoje deixo meus chinelos na sua casa.<\/p>\n<p>\u00c9, carinha. Preciso te dizer uma coisa. Sim, eu sou milion\u00e1rio. N\u00e3o de dinheiro, mas de possibilidades. Talvez seja isso que eu diga ao menino que mora no meu andar. Talvez n\u00e3o, talvez apenas deixe ele viver as possibilidades dele. Talvez.<\/p>\n<p>E.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Voc\u00ea \u00e9 milion\u00e1rio, perguntou-me o menino que brincava no parque. Milion\u00e1rio, eu? Porque voc\u00ea acha isso, perguntei ao garoto. 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