{"id":260,"date":"2017-01-19T01:15:59","date_gmt":"2017-01-19T04:15:59","guid":{"rendered":"http:\/\/www.edgar.pro.br\/blog\/?p=260"},"modified":"2017-01-19T01:26:22","modified_gmt":"2017-01-19T04:26:22","slug":"reencontro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.edgar.pro.br\/blog\/2017\/01\/19\/reencontro\/","title":{"rendered":"Reencontro&#8230;"},"content":{"rendered":"<p>Como todas as noites, executou seu ritual. Acendeu um cigarro e ajeitou o copo de u\u00edsque ao lado da velha m\u00e1quina de escrever. Puxou uma folha em branco e a ajustou milimetricamente. Bateu a letra A ao mesmo tempo em que a campainha tocou.<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea?<br \/>\n&#8211; Eu.<\/p>\n<p>Seus olhares sustentaram um sil\u00eancio inevit\u00e1vel. Sua mente rodopiava entre lembran\u00e7as supostamente enterradas. Ela segurava um meio sorriso entre os l\u00e1bios. Meio sorriso que o aterrorizou. Quase cinco anos haviam se passado desde o dia em que ele a abandonou. Morto, voc\u00ea est\u00e1 morto para mim, foram as \u00faltimas palavras que ele ouvi daqueles l\u00e1bios que agora quase lhe sorriam.<\/p>\n<p>&#8211; O que voc\u00ea faz aqui?<br \/>\n&#8211; Me deixe entrar.<\/p>\n<p>Pela fresta da porta ela podia ver, ao fundo, a coluna de fuma\u00e7a do seu cigarro, a m\u00e1quina, o copo. A mesa ainda estava no mesmo canto. Ele havia mudado pouco. Os cabelos ligeiramente mais curtos que o habitual. A barba por fazer e o cheiro de col\u00f4nia misturado \u00e0 nicotina. Notou que suas m\u00e3os haviam envelhecido mais que o rosto. A m\u00e3o que segurava a porta como um basti\u00e3o. A press\u00e3o dos dedos na madeira era vis\u00edvel, ele estava perturbado.<\/p>\n<p>&#8211; Entrar? Sabe que horas s\u00e3o?<br \/>\n&#8211; Hora de conversarmos.<\/p>\n<p>Morto, eu n\u00e3o estava morto para voc\u00ea? Em um di\u00e1logo imagin\u00e1rio, sua cabe\u00e7a tentava dar conta de antecipar os movimentos que fatalmente o levariam \u00e0 derrota. Durante os anos que seguiram ap\u00f3s a noite em que ele simplesmente virou as costas e foi embora, nada soube dela. E quando soube, foi por um ou outro conhecido em comum. Ela j\u00e1 te odiou, agora apenas te ignora. Ignorava.<\/p>\n<p>&#8211; Conversar sobre o qu\u00ea?<br \/>\n&#8211; Sobre n\u00f3s. Eu e voc\u00ea.<\/p>\n<p>Ela sabia que haveria estranhamento. Tantos anos ignorando o homem que um dia lhe jurou amor eterno. O mesmo homem que a deixou sem nenhuma explica\u00e7\u00e3o. O homem que ela odiou no primeiro ano. O homem que ela esqueceu no segundo ano. O homem que, em anos seguintes, vez ou outra, cruzava com ela pelas ruas da cidade e lhe fazia ranger os dentes. O homem que agora a olhava como quem v\u00ea a pr\u00f3pria Morte a bater-lhe a porta em meio a madrugada.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00f3s?<br \/>\n&#8211; N\u00f3s.<\/p>\n<p>Afastou-se da porta e seguiu pelo corredor. Ela o seguiu. A sala continuava igual. Ele se ajeitou na poltrona pr\u00f3xima \u00e0 janela. Entre os dedos, a antiga moeda de seu av\u00f4. Tinha a mania de mov\u00ea-la entre os dedos quando algo o incomodava. Ela sentou-se. Cruzou as pernas enquanto alisava com as m\u00e3os o tecido do vestido que agora lhe ca\u00eda sobre o div\u00e3 de veludo carmim. Com a m\u00e3o a lhe sustentar o queixo, olhava na dire\u00e7\u00e3o oposta, onde os pequenos pontos de luz que iluminavam a cidade se misturavam \u00e0s gotas d&#8217;\u00e1gua que escorriam pelos vidros retangulares da janela.<\/p>\n<p>&#8211; Por que voc\u00ea me deixou?<br \/>\n&#8211; Por que voc\u00ea voltou?<\/p>\n<p>Ela sorriu. Ele n\u00e3o. Um bilhete. Foi por um bilhete deixado sobre a penteadeira que ela soube que ela n\u00e3o voltaria. A caligrafia cuidadosa e a objetividade t\u00edpica de quem n\u00e3o quer dar explica\u00e7\u00f5es. Acabou, preciso partir. Tr\u00eas palavras, uma v\u00edrgula e um ponto final. As iniciais do nome rabiscadas no canto do papel. Papel que ela trazia consigo. Papel que ela guardou para poder esquec\u00ea-lo. Um bilhete. Bilhete que ele escreveu no papel que costumava usar para datilografar suas ideias. Papel que n\u00e3o comportaria mais que tr\u00eas palavras. Como dizer o inevit\u00e1vel? A golpes de faca. Certeiros, pontuais. <\/p>\n<p>&#8211; Te deixei porque eu j\u00e1 n\u00e3o te amava mais.<br \/>\n&#8211; Eu voltei porque ainda te amo.<\/p>\n<p>Seus olhares sustentaram outro sil\u00eancio inevit\u00e1vel. Ainda me ama, as palavras dela ecoavam em sua mente enquanto observava os pequenos pontos de luz que iluminavam a cidade. Ainda te amo. Tr\u00eas palavras. Depois de tudo. Depois de tanto tempo. Como pode diz\u00ea-las? A golpes de faca. Certeiros, pontuais. A moeda rolou pelo ch\u00e3o, ao encontro de Caronte. Na janela, as gotas de sangue agora se misturavam \u00e0s de chuva. Umas do lado de l\u00e1, outras do lado de c\u00e1. O copo de u\u00edsque vazio. A borda marcada de batom. A porta entreaberta e um rastro de perfume pelo corredor.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Como todas as noites, executou seu ritual. Acendeu um cigarro e ajeitou o copo de u\u00edsque ao lado da velha m\u00e1quina de escrever. Puxou uma folha em branco e a ajustou milimetricamente. Bateu a letra A ao mesmo tempo em que a campainha tocou. &#8211; Voc\u00ea? &#8211; Eu. Seus olhares sustentaram um sil\u00eancio inevit\u00e1vel. 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