{"id":262,"date":"2017-02-02T19:55:54","date_gmt":"2017-02-02T22:55:54","guid":{"rendered":"http:\/\/www.edgar.pro.br\/blog\/2017\/02\/02\/tempos-confusos\/"},"modified":"2017-02-02T19:59:55","modified_gmt":"2017-02-02T22:59:55","slug":"tempos-confusos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.edgar.pro.br\/blog\/2017\/02\/02\/tempos-confusos\/","title":{"rendered":"Tempos confusos"},"content":{"rendered":"<p>Vivemos tempos confusos, pensou. Do outro lado da rua, dois garotos se estapeavam. Entre xingamentos e tabefes, o menor levava vantagem. Se valendo da leveza e rapidez, confiante de que a briga estava ganha, n\u00e3o percebeu o cruzado de esquerda. O sopapo atinguiu-lhe em cheio a bochecha. Desequilibrado, foi ao meio fio. Deu de testa contra os paralelepipedos. Com sorte, teria morrido ali mesmo, com o impacto. Mas o azar fez com que o cr\u00e2nio fosse esmagado pelas rodas do circular. Um dos olhos saltou da \u00f3ribita e agora mirava, se \u00e9 que pode-se dizer que mirava, as m\u00e3os tr\u00eamulas de uma senhora que tomava seu caf\u00e9 no outro lado da rua. Ningu\u00e9m notou, mas o circular em quest\u00e3o fazia o trajeto ao Para\u00edso, bairro que, apesar do nome, perif\u00e9rico, concentrava o populacho. Quando a pol\u00edcia chegou ao local, o maior, dono do potente cruzado de esquerda, j\u00e1 se havia feito fuma\u00e7a. A mulher de m\u00e3os tr\u00eamulas balbuciava algo ao oficial. Seus olhos fixos no olho que a fitava. O condutor jurava que n\u00e3o vira o garoto. Os passageiros, horrorizados com o atraso que lhes sucederia. Dino, o gato vira-latas que frequentava o beco, pos-se a cheirar a pasta encef\u00e1lica que se misturava ao sangue do menino. Ai, Jesus, esclamou uma beata que deu com a cena enquanto vinha de mexericos com uma de suas irm\u00e3s de f\u00e9. Mal sabe ela e, para ser fiel ao relato, s\u00f3 vir\u00e1 a sab\u00ea-lo mais tarde, quando chegue em casa de sua filha, que o, palavras dela, &#8220;mais um desses garotos vagabundos de rua&#8221; era Rubinho, seu neto. Ali\u00e1s, Rubinho era dessas crian\u00e7as mimadas, criadas a p\u00e3o-de-l\u00f3. Estudava em col\u00e9gio chique, daqueles que davam goiabada com queijo fresco no lanche da tarde. Seus pais, aspirantes \u00e0s altas rodas da sociedade, haviam prosperado no ramo da confeitaria. Jomar, o pai, dono de talentos \u00edmpares no manuseio do a\u00e7ucar, havia criado uma bomba de creme que, perdoem-me o trocadilho, era um estouro. Cinara, a m\u00e3e, frequentadora ass\u00eddua de toda e qualquer reuni\u00e3o na qual houvesse senhoras de bem, fazia o comercial. Juntos, fizeram muito dinheiro e logo decidiram que Rubinho teria educa\u00e7\u00e3o de lorde. Duas quadras dali, C\u00e9sar de nascimento, Ces\u00e3o para os \u00edntimos, olhava fixamente para a lousa. Dona Zulmira, professora de Estudos Sociais, inquiria aos demais. Onde est\u00e1 Rubinho, que n\u00e3o voltou do intervalo? Quando terminou seu nono cigarro, nem circular, nem oficiais, nem rabec\u00e3o e muito menos Rubinho. A tarde voltava ao seu fluxo normal. Dino, o gato, petecava entre as patas o novo brinquedo. O olho. Vivemos tempos confusos, pensou novamente, enquanto pagava a conta.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Vivemos tempos confusos, pensou. Do outro lado da rua, dois garotos se estapeavam. Entre xingamentos e tabefes, o menor levava vantagem. Se valendo da leveza e rapidez, confiante de que a briga estava ganha, n\u00e3o percebeu o cruzado de esquerda. O sopapo atinguiu-lhe em cheio a bochecha. Desequilibrado, foi ao meio fio. 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