{"id":96,"date":"2015-05-22T21:38:58","date_gmt":"2015-05-23T00:38:58","guid":{"rendered":"http:\/\/www.edgar.pro.br\/blog\/?p=96"},"modified":"2015-05-22T21:38:58","modified_gmt":"2015-05-23T00:38:58","slug":"nao-te-parece-estranho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.edgar.pro.br\/blog\/2015\/05\/22\/nao-te-parece-estranho\/","title":{"rendered":"N\u00e3o te parece estranho?"},"content":{"rendered":"<p>&#8211; N\u00e3o te parece estranho?<br \/>\n&#8211; O qu\u00ea?<br \/>\n&#8211; Tudo!<br \/>\n&#8211; Tudo?<br \/>\n&#8211; \u00c9! Tudo!<br \/>\n&#8211; Voc\u00ea viaja&#8230;<\/p>\n<p>E viajou. Sua mente deixou aquele plano material. Rapidamente o som desafinado da banda que tocava esgueirou-se. O barulho de copos, risadas e todo o burburinho das conversas em rodas apequenaram-se at\u00e9 a insignific\u00e2ncia. Sequer os odores e sabores permaneceram. Viajou na sua inteireza para fora de si, para fora dali. O corpo presente pendia sobre a cadeira. Os cotovelos sustentavam o dorso. Fechou os olhos e ficou est\u00e1tico. N\u00e3o lhe deram muita bola. N\u00e3o era raro algum incauto exagerar no consumo e ser nocauteado por algumas doses de um destilado qualquer. Daquele lado, longe dali, sua mente divagava, devagar. Longe dali, percorreu espa\u00e7os que sequer Dali sonharia. Sonhou um sonho estranho. N\u00e3o te parece estranho que, em meio \u00e0 balburdia do Pub, aquele corpo, desafiante das leis da gravidade, passasse t\u00e3o desapercebido? Estranho \u00e9 o narrador se preocupar com isso, intrometendo-se naquilo que apenas deveria narrar. Narremos. Sua mente partiu para uma viagem sem precedentes na hist\u00f3ria daquele corpo. Talvez fosse o \u00e1lcool, talvez fosse a amargura, talvez ambos. O fato \u00e9 que para os demais que ocupavam a mesa, ele apenas teria dormido, um vacilo pr\u00f3prio de quem n\u00e3o tem culh\u00f5es para a boemia. Fraco. Mas nada disso estava ao alcance daquela mente que agora sobrevoava campos em um pequeno planeta na periferia oposta, uma pequena rocha flutuante que, para assombro de muitos pastores, trazia em seus campos curiosas ovelhas. Seus olhos imateriais, e voc\u00ea h\u00e1 de pensar: &#8220;olhos? acaso o corpo n\u00e3o ficou l\u00e1 longe? Sim, perdoe este narrador, afinal uma mente dispensa os gl\u00f3bulos oculares e suas respectivas lentes corretivas, mas h\u00e1 que se compensar a fragilidade da linguagem com figuras, assim pode-se dizer o indiz\u00edvel para pessoas e ovelhas, eis a arte dos pastores. E, enquanto perd\u00edamos tempo com retinas e nervos \u00f3ticos, a mente errante da qual contamos a hist\u00f3ria j\u00e1 se encontrava numa zona que nem mesmo a mais ousada met\u00e1fora, a mais meticulosa analogia seriam capazes de descrever. A mente estava livre. Livre do tempo, livre do espa\u00e7o. Livre da bisbilhotagem do narrador, que aqui apenas se limitar\u00e1 a dizer que a mente se foi. <\/p>\n<p>&#8211; Hey, acorda.<br \/>\n&#8211; Oh, mano. O cara apagou.<br \/>\n&#8211; Fraco.<br \/>\n&#8211; Hey, n\u00e3o te parece estranho?<br \/>\n&#8211; O qu\u00ea?<br \/>\n&#8211; Ele n\u00e3o respira&#8230;<\/p>\n<p>Inerte, o corpo, vencido pela gravidade, estatelou-se no ch\u00e3o. <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8211; N\u00e3o te parece estranho? &#8211; O qu\u00ea? &#8211; Tudo! &#8211; Tudo? &#8211; \u00c9! Tudo! &#8211; Voc\u00ea viaja&#8230; E viajou. Sua mente deixou aquele plano material. Rapidamente o som desafinado da banda que tocava esgueirou-se. O barulho de copos, risadas e todo o burburinho das conversas em rodas apequenaram-se at\u00e9 a insignific\u00e2ncia. 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