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Copos cheios…

by Edgar . 0 Comments

É sempre bom lembrar
que um copo vazio
está cheio de ar…

(Gilberto Gil)

Sobre a mesa, um copo. De vidro. Transparente. O copo está lá, ele o olha absorto. Estava vazio. Não se recorda o que havia no copo. Cerveja, suco de laranja, groselha? Talvez água. A verdade é que não se recordava nem mesmo há quanto tempo o copo lá estava. Tinha por hábito lagar os copos pela casa. Só se lembrava de recolhe-los quando já não havia mais nenhum outro no armário. Eram copos de todos os tipos. Copos bonitos, feios, grandes, pequenos. Alguns foram ganhos, outros roubados. E havia os de requeijão. Aquele sobre a mesa era apenas mais um copo cheio de ar. Ar à espera do despejo de si por algum liquido ali despejado. Absorto a olhar o copo, a sua memória transbordou…

Lembrou-se do aluno. O aluno que lhe indagava sobre o universo, sobre os mistérios impróprios à filosofia. O aluno cujos pais tinham por função ignorá-lo. O aluno cujos amigos tinham por prazer atormentá-lo. Lembrou-se daquele copo cheio de sonhos, de talentos. Aquele copo que todos diziam vazio. O copo que num dia cinzento, rompeu-se. Estilhaçou-se em fezes nas paredes do banheiro masculino. Tirou de dentro de si tudo aquilo que diziam que ele era. Escreveu nas paredes todos os excrementos verbais que ouvira com seu próprio excremento. Tudo o que aquele copo queria era ser um corpo, um alguém. Tudo o que lhe permitiram foi ser um copo cheio de dor, de raiva, um copo que, vez ou outra, indagava sobre o universo, sobre os mistérios impróprios à filosofia…

Lembrou-se da garota. A garota que, ignorando que todos o ignoravam, sorriu-lhe. Sorriu-lhe ainda que não tivesse motivos para sorrir. A garota que lhe contou seus segredos mais íntimos. Segredos que a faziam chorar todas as noites. Chorar por sua impotência adolescente contra um mundo adulto. Um copo trincado por tantas quedas. O copo que, num dia sangrento, pôs para fora aquilo que lhe meteram à força. Tudo o que aquele copo queria era ter seu corpo de volta. Um corpo que lutava para não transparecer suas trincas. Um corpo que escondia-se em sua beleza maquiada. Um corpo cujas lágrimas encharcaram seu ombro. Um corpo trêmulo. Um corpo que lhe sorriu e sobre quem despejou suas lágrimas. Lágrimas que ainda escorrem dos seus olhos quando pensa nela. Aquela garota que em uma noite ensinou-lhe o que ele jamais poderia saber por si só…

Quando deu por si, estava com o copo entre as mãos. Olhou no seu interior e, depois de um longo suspiro, deixou-o cair ao chão. O barulho preencheu o silêncio do cômodo. Os cacos se espalharam pelo piso. Recolheu um dos cacos e levou-o a contra-luz.

Não era mais um copo, não estava mais vazio.

E.