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Se o seu pai pudesse escolher, você acha que o filho seria você?

by Edgar . 1 Comment

Quando eu tinha meus 10 anos, lá pelos idos de 1983, ouvi I Love It Loud do KISS. Virei fã. Aos 10 anos de idade, nos anos 1980, éramos umas topeiras se comparados às crianças de hoje. Quando eu tinha 10 anos havia 5 canais de TV. Se acontecesse de cair um meteoro na URSS ou de um prédio sofrer um atentado terrorista, saberíamos disso 2 ou 3 dias depois. A informação caminhava mais lentamente nessa época. Mas, ainda assim, aos 10 anos de idade, eu conheci o KISS. Aos 12, enquanto eu saia de uma loja de discos com um vinil do KISS, ouvi um carinha mais velho, de uns 17 anos, dizer que eu era poser, que o KISS era uma bosta e que eu era viado por escutar aquela banda de bichas maquiados. O irônico é que ele vestia uma camiseta do Judas Priest. Foda-se, KISS é legal. Foi o que eu quis dizer, mas o medo de apanhar daquele cara foi maior e eu sai de fininho com a cabeça baixa.

No mundo do Rock/Metal sempre houve essa rixa. Sua banda é uma bosta. A minha é que é boa. Já me meti em altas discussões por conta disso. Aos 15 aprendi a tocar bateria. Bom, sejamos justos, tentei aprender. O que você sabe tocar? Paradise City do Guns’n Roses. Que lixo, seu bosta. Cara, eu me achava o máximo tirando uma música inteira na batera sem ter feito uma aula em escolas ou conservatórios, mas ou você tocava Master of Puppets sem nenhum erro ou você era um bosta. Eu era um bosta. Acho que sempre fui.

Quando entrei no colégio técnico a rixa transladou para as linguagens de programação. Você programa em quê? Dataflex. Dataflex? Que bosta. Bom mesmo é Object Pascal. Dataflex pagava meu salário (com o qual eu comprava discos do KISS), Object Pascal era a masturbação nerd da época. Ninguém entendia o que era Orientação à Objetos em 1991, poucos ainda entendem! Visual Basic? Lixo. Andar com um livro de C++ te tornava um semi-deus, assim como dominar as macros no Lotus 123. Eu sabia tudo sobre macros em Lotus 123, dava até aulas disso para os caras de uma série acima da minha, mas eu curtia KISS e programava em Dataflex. Eu era um bosta. Sempre fui.

A lista de coisas que eu faço ou sei que me enquadraram na categoria “você é um bosta” é longa. Não vale a pena cansar seus nervos óticos com ela. Depois de um tempo, com a maturidade que só o tempo proporciona, mas nem sempre, eu compreendi que sempre haverá alguém para te dizer que você é um bosta. Um familiar, um chefe, uma colega de trabalho, o cobrador do ônibus, aquela irmã gostosa do carinha que senta no fundão e, pasme, as vezes, você mesmo vai se dizer: você é um bosta. Eu sou.

A banda Detrito Federal, uma banda punk dos anos 1980, tinha uma música cujo refrão perguntava: se o seu pai pudesse escolher, você acha que o filho seria você? Toda vez que vejo um colega professor dizer que fulano é um bosta, pelo motivo que for, eu penso naquele moleque de 10 anos de idade curtindo I Love It Loud feito um babuíno com ataque epilético. Nunca fui o melhor aluno, repeti de ano duas vezes. Me meti em mais cagadas que a média nacional. Nunca fui exemplar em nada e, ainda por cima, ouvia KISS. Um bosta-mor.

Onde eu quero chegar? Lugar nenhum. Mentira. A história de cada um é cheia de escolhas que serão julgadas pelos outros. Pouco importa quanto você esteja apaixonado pelo que faz, sempre haverá quem diga que você é um bosta. Você faz cerveja? Sim. Segue a Reinheitsgebot? Não. Ah, você é um bosta. É implacável. Mas, sejamos justos, acreditar nisso, que você é um bosta, isso é opcional.

Beijo do bosta.

😉