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Vale tudo, mas hoje não. Não na escola…

by Edgar . 0 Comments

Paul Feyerabend foi um filósofo austríaco que se dedicou, em grande parte, à filosofia da ciência. Minha saudosa professora do mestrado, Maria Lúcia, me recomendou a leitura de sua biografia, coisa que eu, relapso, ainda não fiz. Maria Lúcia nos deixou, foi semear campos com seus heleantos em outras dimensões, e eu sinto que mesmo que eu venha a ler a biografia de Feyerabend, e eu vou, ela não terá o mesmo brilho que teria se eu pudesse discutí-la com minha professora. Mas não era sobre isso que eu ia falar.

Paul Feyerabend disse: ANYTHING GOES! Que na tradução mais comumente utilizada significa: vale tudo. Ele falava do método científico. Método, o meta ódos, o caminho através do qual, em grego. Método é o caminho que seguimos para realizar algo. Descartes, igualmente filósofo, porém francês e 328 anos mais velho que Feyerabend, também dedicou parte de seu trabalho filosófico à ciência. Descarte escreveu uma obra chamada O Discurso do Método, no qual descreve como se deve bem conduzir a razão na busca da verdade. Feyerabend, sem delongas, manda o método às quicas. Não, sejamos justos, ele não manda “o” método para as pontes que partem, mas a necessidade rígida de “um” método. Em suma, tudo vale. Crie o seu método, descarte Descartes e faça do seu jeito. Do it yourself. DIY. Mas não é sobre isso que eu quero falar.

Causa-me uma certa angústia quando eu ouço, em alto e bom som, na sala dos professores, uma criatura dizer que reprovou um trabalho por causa de um desvio de 0,5cm de erro no tamanho da margem da paginação do mesmo. Uma afronta à ABNT e suas sacrossantas normas. São nesses momentos em que a forma toma o lugar do conteúdo que eu respiro fundo, me levanto, procuro uma sala vazia e descarto-me. Fico pensando no aluno que foi colocado à margem por causa da margem. Eu entendo a necessidade de formalidades, elas são necessárias. Será que Descartes seguiu as normas da ABNT de sua época? Não sei. Creio que não. Reza a lenda que Descartes escrevia em latim quando queria agradar o clero, a ABNT da época. Mas quando queria ser mais livre, escrevia em francês. Por isso temos um plano cartesiano raramente reconhecido como obra de Descartes. Descartes em francês, Cartesius em latim. Chega de Descartes.

Paul Feyerabend. Levei uns bons anos para aprender a escrever seu nome direito. Curiosamente, assimilei a grafia de Nietzsche mais facilmente que Feyerabend. Certamente pronuncio errado. Anything goes! Pronuncio do jeito que eu quiser. Vale tudo. Deveria valer. Produzir conhecimento deveria ser um ato criativo, não normativo. A universidade, assim como a escola em todos os seus níveis, disciplinam a criatividade. De Paulo Freie a Ken Robinson, muita gente fala sobre isso. Estimular a criatividade. E, convenhamos, deixar as regras de lado, muitas vezes, é o elemento criativo.

“Insanidade é continuar fazendo sempre a mesma coisa e esperar resultados diferentes.”

Einstein é o autor da frase acima. É o que dizem. Se não for, dane-se. Ela vale por si só, não precisa do aval de Einstein. É óbvia. E, apesar da obviedade, ela é obliterada nas práticas docentes Brasil afora… descartada, segue-se fazendo-se do mesmo jeito, segundo o manual, dentro da caixa… deixando à margem os que não ABNTizam a margem. Marginais…

Desculpe, Paul. :/

Por que alunos colam?

by Edgar . 2 Comments

Lá estou eu na sala dos professores, ouvindo uma conversa tensa entre professores de um curso qualquer. A tensão gira ao redor de uma prova que foi fotografada e distribuída ao alunos de outro período. A maracutaia foi descoberta, na verdade intuída, a partir dos assombrosos 99% de notas máximas na referida avaliação. Propostas acaloradas pipocam na roda: do confisco de celulares e demais traquitanas tecnológicas ao uso de canetas transparentes, provas cifradas pelo número do RA e, por que não, colocar os alunos no ginásio, mantendo-os a 5 metros de distância uns dos outros. A cena seria cômica não fosse o real desespero daqueles professores. Inibir a cola a qualquer custo. De soslaio, eu observo a prova. 20 testes de múltipla escolha e duas questões dissertativas.

Existem inúmeras teorias e metodologias que dão conta, ou não, de discutir a avaliação escolar. Não vou entrar nessa seara. Por mais que eu tenha uma postura muito clara sobre o que vem a ser uma avaliação escolar, vou me abster de comentar. Vamos por outro caminho, vamos analisar essa criatura que habita as salas de aula, este ser que, ausente de luminosidade, rasteja no obscuro mundo da educação: o aluno. Alunos do tipo universitário, para fazer o recorte. O que são? Onde vivem? O quê comem? Hoje, neste blog…

Aluno é o “sem luz”. Etimologicamente, a palavra aluno designa aquele que não tem luz própria, logo, necessita de um mestre, um buda iluminado, um guia para a luz. Venha Carolyne, venha para a luz. Feito criaturas do limbo, poltergheisters aprisionados nas telas de seus aparatos tecnoilógicos, almas penadas e desencarnadas que não sabem exatamente onde estão, o que são e para onde vão.

O que leva um aluno, alguém que em tese está buscando uma formação profissional, uma qualificação que lhe renda melhores cargos, maiores salários ou, ainda que seja o caso, ainda que seja raro, satisfação pessoal, a colar numa prova? Pois, vejamos, a cola comporta duas dimensões: a menor delas, enganar o professor; a maior, enganar-se a si mesmo. A pergunta aqui proposta não comporta uma resposta simples. Meu amigo e xará, Edgar Morin, diria que a coisa é complexa.

Enganar, trapacear, burlar. Todos verbos conjugados no dia a dia. É possível que se conjugue-os, em certas circunstâncias, num sentido positivo, como se fosse licito enganar. Afinal, enganamos as crianças desde a tenra idade com mentiras como Papai Noel, Coelho da Páscoa etc. Alguns dirão não se tratar de engano, mas apenas de uma fabulação necessária ao desenvolvimento infantil. Polêmicas à parte, desde cedo aprendemos a enganar, a trapacear, a burlar. Trapaceamos nossos pais quando fingimos uma dor de barriga para não ir a escola, coisa que aprendemos com nossos pais, quando a mamãe compra um mimo na nossa frente e diz “não conte para o seu pai”, ai nasce o vínculo conivente, conviniente, cúmplice com o engodo. Salutar, em certo ponto. Nocivo quando desmedido. Voltemos à pergunta inicial.

Por quê alunos colam em provas que deveriam ser instrumentos de avaliação de sua performance escolar. Não seria de sumo interesse do aluno saber se ele está realmente aprendendo, se é que ele já não o sabe. Seria do interesse dos professores saber se estão conseguindo ensinar? Seria a prova o instrumento adequado para isso? Opa, eu disse que não iria entrar por essa seara… Desculpem-me.

Alunos colam porque seres humanos colam. E aqui cabe definir o que é colar. Acima, de forma inocente, dei a entender que colar é trapacear. Vejamos, se entendermos o verbo colar como o ato de consultar fonte ilícita de conhecimento, a saber, qualquer forma de conhecimento em suporte físico (papel, borracha, celular), bem como em suporte intangível, como a voz sussurrada do colega detrás, as piscadelas mnemônicas da garota do canto superior esquerdo, significando cada uma delas uma alternativa possível ou, ainda, o contato paranormal com entidades divinas. Se cada uma dessas formas de cola representa uma forma de trapaça, a cola está condenada e os coladores deverão arder no fogo dos infernos.

Por outro lado, se considerarmos a cola como o ato de recuperar algo que, submetido ao escrutínio da razão, pode nos ajudar a resolver uma questão, seja ela de ordem teórica, prática ou espiritual, então a cola é uma prática milenar, inscrita no DNA humano desde os primórdios, desde as cavernas, cenário das primeiras formas de registro de nosso conhecimento. Pierre Lévy, um filósofo que se mete a escrever sobre tecnologias, certa vez me disse, numa agradável tarde de verão, que as tecnologias são extensões de nós mesmos. Um caderno, daqueles que você guarda as senhas do banco, os telefones da tia Joana, as receitas de bolo da vovó Jurema ou os números fiscais da mercearia do seu Domingos, um caderno é um suporte tecnológico para a nossa memória. Tecnológico porque transformar árvores em folhas de papel não é magia, é tecnologia! Suporte porque nos ajuda, nos auxilia, guarda coisas que deixadas a cargo da memória, poderiam se perder. Oras, será que eu preciso me delongar? Não, voltemos à pergunta de um milhão de reais.

Alunos colam porque colar é inteligente. Ai ai ai… Vejamos, usar suportes tecnológicos para auxiliar nossa memória é uma ação inteligente. O caderno não pensa por nós. O livro de receitas da vovó Jurema não cozinha por nós. Ao invés de avaliar a capacidade de memorização dos alunos, as provas deveriam avaliar suas capacidades de, diante de múltiplos suportes tecnológicos, raciocinar sobre diversas fontes, teorias, dados e, analisando-os, comparando-os, confrontando-os, resolver problemas complexos, que demandam mais que saber a fórmula da água, o teorema de Pitágoras ou em que dia, mês e ano Dom Pedro II teve uma caganeira às margens do Ipiranga. Ai ai ai, falei demais…

Nessa mesma noite ajudei um colega professor a aplicar prova, a dele, com consulta, em duplas, com questões de compreensão e análise dos conteúdos tratados em aula junto dos conhecimentos trazidos pelos alunos. Todos colaram, todos consultaram seus cadernos, colegas, livros-texto, pais de santo e, sem que eles mesmos notassem, uma certa luminosidade se formou nos seus entornos… Deixaram de ser alunos!!

Até a próxima, poovooo.

Edgar.