Insetos & Luminárias

by Edgar . 0 Comments

Uma da madrugada, sentou em frente ao notebook, fez login no blog e pensou que o silêncio da noite seria um bom companheiro de escrita. Ao fundo, dois cães latiam, um ou outro carro ao longe deixavam o seu rastro sonoro e ali, dentro dele, aquele zumbido estranho que o acompanhava em certos momentos. Escreveu uma frase sobre o zumbido, mas a apagou em seguida, não faria sentido para os leitores, pois estes teriam que estar dentro de sua cabeça para compreender aquele zumbido. O frescor da madrugada entrava por uma das janelas e junto com ele, um ou outro inseto. Lembrou-se que precisava de um inseticida, mas não anotou isso e sabemos que amanhã cedo já terá esquecido dessa necessidade. Mil ideias rodopiavam dentro de sua cabeça, mescladas ao zumbido e ao som de um caminhão que desceu a avenida. Nesta altura, o silêncio da noite se mostrou um péssimo companheiro. Minimizou o navegador, abriu o reprodutor de mídias e selecionou aquela velha banda dos anos 80. Seu alter ego desistiu, até então olhava quieto para mais uma tentativa de por nas linhas do blog as suas incertezas, seu medos, suas fragilidades. Aquela música do a-ha era um golpe de misericórdia em qualquer tentativa de lucidez. O zumbido continuava, mas o alter ego já se tinha posto a dormir. Embalado pela batida pop norueguesa, digitou e apagou a mesma frase pelo menos umas 10 vezes. Decidiu comer. A geladeira era uma vitrine de guloseimas, mas nada o apeteceu, sua fome era de outra coisa, era uma fome às avessas, queria por para fora tudo o que o perturbava naqueles dias, perturbação que tinha nome e sobrenome. Digitou, hesitou, apagou. Maldito covarde, disse para si mesmo. Voltou à geladeira, abriu uma lata de energético e matou-a em um só gole. Rá, agora sim, o alter ego despertou com tanta taurina inundando o sistema circulatório. Agora o bicho pega. Bichos, malditos bichos que entram pela janela, essas desgraças não dormem? Foi até o quarto, pegou um post-it, escreveu INSETICIDA e colou o post-it na porta, próximo a fechadura. O alter ego olhava de soslaio, sabia que aquilo era mais procrastinação que necessidade, mas ainda assim, sentindo a taurina fazer efeito, esperou por algo. De volta ao teclado, respirou fundo e releu tudo o que tinha escrito até agora. Maldito covarde, à merda com sua covardia. Fechou o reprodutor de mídias, chega de a-ha. Chega. Basta. Cadê o zumbido? Cadê os cães? Cadê os carros e insetos. Quando deu por si, estava imerso no silêncio da madrugada, o companheiro pretendido desde o início. Imerso naquele silêncio, deixou-se levar pela fluidez do momento. Não percebeu que enquanto estava longe, seu alter ego pôs-se a digitar loucamente, vomitando toda aquela angústia, todos os medos, raivas, desesperos. Digitou, digitou, digitou até a última gota de taurina evaporar nas asas do pégaso alucinado que voava ao redor da luminária. Subitamente o zumbido, os cães, os carros e os insetos voltaram com fúria. Na tela do notebook, dezenas de linhas surgiram do nada, linhas que esbofeteavam sua cara violentamente, linhas que o fizeram chorar. Apagou-as todas, apagou a luminária. Deslogou-se do blog, desligou-se do notebook. Deitou-se. Dormiu. Dormiu, mas antes pode ouvir seu alter ego dizer: covarde, maldito covarde!

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