Microvidas

Sentei-me à mesa do escritório acompanhado de uma xícara de café. Na tela do computador, um universo de fragmentos. Uma frase aqui, uma foto ali, um verso, uma rima, uma canção, uma reclamação, uma indireta, uma direta, um lamento… como diria aquele amigo de outros tempos, e assim vai. Assim segue a vida, uma microvida, microscópica diante da imensidão de tudo aquilo que não cabe na resolução do monitor e, ainda assim, macroscópica frente a este segundo que acaba de passar. Microvida, uma vida pequena, pequenina, pequenininha. Uma vidinha? Não! A vida não se apequena no ciberespaço. Fragmentos. Nossas vidas acontecem em fragmentos e estes sim, são partículas, pequenas partes. Há aquela (micro)vida da escola, da universidade, do trabalho, da família, da boemia e até mesmo aquela (micro)vida da solidão. Vidas fragmentadas em pequenos momentos, frações. Fragmentada pelas horas que o relógio nos toma em cada uma das nossas microvidas, microcosmos, microcaos… Não, a vida não se apequena, ela é apenas um amontoado de pequenos momentos, tal qual os átomos quem nos compõem. O ciberespaço é só mais um espaço onde as microvidas transitam. Da tela do celular para o gole com os amigos, da tela do computador para os beijos da amada, da tela do notebook para os tiros deflagrados contra inocentes, por detrás de cada tela, uma microvida. A vida, aquela maior, a que se coloca nos cantos metafísicos da religião, essa vida escapa-nos pelo vão dos dedos. Essa, a macrovida, só pode ser pensada, ponderada, refletida, filosofada (filosofiada)… a vida é uma coleção de momentos. Este momento, no qual escrevo estas poucas palavras, é apenas mais um momento, uma microvida que faz sentido dentro dele e que, fora dele, talvez tenha a mesma importância que dois átomos de hidrogênio que perambulam por um quasar qualquer, a trilhões de anos-luz daqui… a pequeneza da vida não está na sua fragmentação, sua pequeneza, já disse o poeta, está n’alma, mas isso é assunto para outra microvida.

😉 EdGar

O som do silêncio…

And in the naked light I saw
Ten thousand people, maybe more
People talking without speaking
People hearing without listening

The sound of silence, Simon & Garfunkel

Olá blog, meu velho amigo.

Meu silêncio te constrange, eu sei. Ultimamente tem sido mais fácil escrever nos murais sociais, expostos, postos de vigilância, locais de fácil acesso e fácil digestão. Locais onde o silêncio se implanta. Aquele silêncio tão profundo que o seu som se perde. Hoje eu acordei com o som daquele silêncio ecoando na minha mente. Na verdade, blog, eu o tenho ouvido em muitas manhãs. Sobretudo nessas últimas manhãs frias de um quase inverno, atípico, que nos soterra nas cobertas e draga toda a vontade de explorar o mundo. Nessas manhãs, imerso em meus pensamentos, o som pulsa mais forte. Perturbá-lo requer mais do que estamos dispostos a dar… tenho ouvido muito essa antiga canção. Já a ouvi muitas e muitas vezes desde minha adolescência, mas poucas vezes parei para escutá-la. Talvez hoje, blog, eu tenha melhores ouvidos para escutá-la. Seria uma forma poética de me confortar, mas isso não passa de uma bela mentira. Hoje, blog, o que eu tenho é um acumulo de imagens vistas nas ruelas de paralelepípedos que eu percorri. Imagens de uma vida que só coube a mim viver. Imagens e escuridão. Essa canção, The Sound of Silence, fala de coisas que eu custei a entender. Coisas que eu frequentemente esqueço. Por isso, caro blog, me desculpe a ausência, mas eu vim conversar com você novamente.

Há um emaranhado de coisas que brotam da mente. Um turbilhão de pensamentos que jamais serão registrados. Ideias que jamais ganharão corpo. E, no fundo, a pergunta que se desdobra em minha mente é: e que importância isso tem? Nenhuma? Pouca? Não sei. Talvez seja tudo uma questão de escala. No meu microcosmo, há muito o que dizer, mas hoje é um daqueles domingos em que eu acordo flutuando na imensidão do espaço sideral, onde a Terra é nada mais que um pálido ponto azul perdido entre tantos outros pontos de luz. Pontos que meu olhar insiste em ignorar, pois é a escuridão profunda do espaço que me chama à atenção. A matéria escura, os buracos negros. Nessa escala, nada do que eu tenho a dizer importa. Bilhões de anos me separam de uma singularidade. Trilhões de estrelas nascem e morrem sem que ninguém soubesse, saiba, ou venha a saber delas. O espaço é silencioso. E imerso nele, as palavras silenciam.

Assim como essas estrelas, a maioria de minhas ideias morrem dentro do meu microcosmo cerebral, sem que ninguém as ouça ou leia. E, sinceramente blog, isso pouco importa. Talvez o grande exercício da escrita seja o diálogo consigo mesmo. As pessoas, os outros, são apenas transeuntes numa avenida a qual todos transitam. Escritores de páginas que ninguém compartilha. Páginas que não se encontram nas listas telefônicas nem nos resultados do Google. Talvez, meu velho e caro blog, a única pessoa para a qual escrevemos é para nós mesmos. E isso me soa tão ridículo agora, pois você, blog, com quem eu converso agora, nem é uma pessoa. Talvez seja. Olá, escuridão.

O cursor piscando, as mãos sobrepostas sustentando o queixo. A tecla delete pressionada mais vezes que o desejado. A escrita me desafia. Olho para a janela e vejo as folhas verdes do grande parque que me cerca. Parque no qual eu deveria estar agora, respirando o ar fresco. Parque que ri dos meus cinquenta metros quadrados de espaço. Mas o parque também é um microcosmo insignificante diante da imensidão de um domingo como o que se forma dentro da minha mente. Alias, o parque é o refúgio de famílias corroídas pela poluição da cidade. Sorrisos falsos para fotos que irão passar a eternidade no cartão de memória. Falsos atletas que, como eu muitas vezes, diluem seus remorsos sedentários em duas voltas e pés sujos de terra. Falsos casais que desfilam de mãos dadas enquanto cobiçam os corpos que fazem cooper. Corpos falso, alias. O parque também está cheio do som do silêncio…

É, caro blog, foi bom te ver novamente.
Até um dia.

Insetos & Luminárias

Uma da madrugada, sentou em frente ao notebook, fez login no blog e pensou que o silêncio da noite seria um bom companheiro de escrita. Ao fundo, dois cães latiam, um ou outro carro ao longe deixavam o seu rastro sonoro e ali, dentro dele, aquele zumbido estranho que o acompanhava em certos momentos. Escreveu uma frase sobre o zumbido, mas a apagou em seguida, não faria sentido para os leitores, pois estes teriam que estar dentro de sua cabeça para compreender aquele zumbido. O frescor da madrugada entrava por uma das janelas e junto com ele, um ou outro inseto. Lembrou-se que precisava de um inseticida, mas não anotou isso e sabemos que amanhã cedo já terá esquecido dessa necessidade. Mil ideias rodopiavam dentro de sua cabeça, mescladas ao zumbido e ao som de um caminhão que desceu a avenida. Nesta altura, o silêncio da noite se mostrou um péssimo companheiro. Minimizou o navegador, abriu o reprodutor de mídias e selecionou aquela velha banda dos anos 80. Seu alter ego desistiu, até então olhava quieto para mais uma tentativa de por nas linhas do blog as suas incertezas, seu medos, suas fragilidades. Aquela música do a-ha era um golpe de misericórdia em qualquer tentativa de lucidez. O zumbido continuava, mas o alter ego já se tinha posto a dormir. Embalado pela batida pop norueguesa, digitou e apagou a mesma frase pelo menos umas 10 vezes. Decidiu comer. A geladeira era uma vitrine de guloseimas, mas nada o apeteceu, sua fome era de outra coisa, era uma fome às avessas, queria por para fora tudo o que o perturbava naqueles dias, perturbação que tinha nome e sobrenome. Digitou, hesitou, apagou. Maldito covarde, disse para si mesmo. Voltou à geladeira, abriu uma lata de energético e matou-a em um só gole. Rá, agora sim, o alter ego despertou com tanta taurina inundando o sistema circulatório. Agora o bicho pega. Bichos, malditos bichos que entram pela janela, essas desgraças não dormem? Foi até o quarto, pegou um post-it, escreveu INSETICIDA e colou o post-it na porta, próximo a fechadura. O alter ego olhava de soslaio, sabia que aquilo era mais procrastinação que necessidade, mas ainda assim, sentindo a taurina fazer efeito, esperou por algo. De volta ao teclado, respirou fundo e releu tudo o que tinha escrito até agora. Maldito covarde, à merda com sua covardia. Fechou o reprodutor de mídias, chega de a-ha. Chega. Basta. Cadê o zumbido? Cadê os cães? Cadê os carros e insetos. Quando deu por si, estava imerso no silêncio da madrugada, o companheiro pretendido desde o início. Imerso naquele silêncio, deixou-se levar pela fluidez do momento. Não percebeu que enquanto estava longe, seu alter ego pôs-se a digitar loucamente, vomitando toda aquela angústia, todos os medos, raivas, desesperos. Digitou, digitou, digitou até a última gota de taurina evaporar nas asas do pégaso alucinado que voava ao redor da luminária. Subitamente o zumbido, os cães, os carros e os insetos voltaram com fúria. Na tela do notebook, dezenas de linhas surgiram do nada, linhas que esbofeteavam sua cara violentamente, linhas que o fizeram chorar. Apagou-as todas, apagou a luminária. Deslogou-se do blog, desligou-se do notebook. Deitou-se. Dormiu. Dormiu, mas antes pode ouvir seu alter ego dizer: covarde, maldito covarde!

Se o seu pai pudesse escolher, você acha que o filho seria você?

Quando eu tinha meus 10 anos, lá pelos idos de 1983, ouvi I Love It Loud do KISS. Virei fã. Aos 10 anos de idade, nos anos 1980, éramos umas topeiras se comparados às crianças de hoje. Quando eu tinha 10 anos havia 5 canais de TV. Se acontecesse de cair um meteoro na URSS ou de um prédio sofrer um atentado terrorista, saberíamos disso 2 ou 3 dias depois. A informação caminhava mais lentamente nessa época. Mas, ainda assim, aos 10 anos de idade, eu conheci o KISS. Aos 12, enquanto eu saia de uma loja de discos com um vinil do KISS, ouvi um carinha mais velho, de uns 17 anos, dizer que eu era poser, que o KISS era uma bosta e que eu era viado por escutar aquela banda de bichas maquiados. O irônico é que ele vestia uma camiseta do Judas Priest. Foda-se, KISS é legal. Foi o que eu quis dizer, mas o medo de apanhar daquele cara foi maior e eu sai de fininho com a cabeça baixa.

No mundo do Rock/Metal sempre houve essa rixa. Sua banda é uma bosta. A minha é que é boa. Já me meti em altas discussões por conta disso. Aos 15 aprendi a tocar bateria. Bom, sejamos justos, tentei aprender. O que você sabe tocar? Paradise City do Guns’n Roses. Que lixo, seu bosta. Cara, eu me achava o máximo tirando uma música inteira na batera sem ter feito uma aula em escolas ou conservatórios, mas ou você tocava Master of Puppets sem nenhum erro ou você era um bosta. Eu era um bosta. Acho que sempre fui.

Quando entrei no colégio técnico a rixa transladou para as linguagens de programação. Você programa em quê? Dataflex. Dataflex? Que bosta. Bom mesmo é Object Pascal. Dataflex pagava meu salário (com o qual eu comprava discos do KISS), Object Pascal era a masturbação nerd da época. Ninguém entendia o que era Orientação à Objetos em 1991, poucos ainda entendem! Visual Basic? Lixo. Andar com um livro de C++ te tornava um semi-deus, assim como dominar as macros no Lotus 123. Eu sabia tudo sobre macros em Lotus 123, dava até aulas disso para os caras de uma série acima da minha, mas eu curtia KISS e programava em Dataflex. Eu era um bosta. Sempre fui.

A lista de coisas que eu faço ou sei que me enquadraram na categoria “você é um bosta” é longa. Não vale a pena cansar seus nervos óticos com ela. Depois de um tempo, com a maturidade que só o tempo proporciona, mas nem sempre, eu compreendi que sempre haverá alguém para te dizer que você é um bosta. Um familiar, um chefe, uma colega de trabalho, o cobrador do ônibus, aquela irmã gostosa do carinha que senta no fundão e, pasme, as vezes, você mesmo vai se dizer: você é um bosta. Eu sou.

A banda Detrito Federal, uma banda punk dos anos 1980, tinha uma música cujo refrão perguntava: se o seu pai pudesse escolher, você acha que o filho seria você? Toda vez que vejo um colega professor dizer que fulano é um bosta, pelo motivo que for, eu penso naquele moleque de 10 anos de idade curtindo I Love It Loud feito um babuíno com ataque epilético. Nunca fui o melhor aluno, repeti de ano duas vezes. Me meti em mais cagadas que a média nacional. Nunca fui exemplar em nada e, ainda por cima, ouvia KISS. Um bosta-mor.

Onde eu quero chegar? Lugar nenhum. Mentira. A história de cada um é cheia de escolhas que serão julgadas pelos outros. Pouco importa quanto você esteja apaixonado pelo que faz, sempre haverá quem diga que você é um bosta. Você faz cerveja? Sim. Segue a Reinheitsgebot? Não. Ah, você é um bosta. É implacável. Mas, sejamos justos, acreditar nisso, que você é um bosta, isso é opcional.

Beijo do bosta.

😉

Sobre o que eu leio e sobre o que eu não quero falar…

Eu ainda não sei o título desta postagem. De certo que, agora, no seu presente, meu passado, você está lendo ele, há um título. No entanto, agora, no meu presente, seu futuro, o título ainda é uma incógnita. A verdade é que eu não sei bem sobre o que eu vou escrever. Os últimos dias nas redes sociais foram estranhos, um clima de agitação, comoção, agressão, incompreensão… vivemos dias estranhos. Mas, e eu já disse isso antes, em outros tempos, em outros blogs, com outras palavras… todos os tempos são estranhos, apenas na história, escrutinadora do que já houve, os tempos ganham clareza — quando ganham.

Quer saber, não vou falar sobre essas coisas… da morte de ilustres celebridades desconhecidas à horda dos defensores da família tradicional, eu, malandrão, poderia fazer como aquele garoto do ENEM e escrever aqui uma receita de miojo, com queijo, mioqueijo, uma das minhas melhores produções culinárias. Mas não vou falar, menos ainda dar a receita, do meu mioqueijo.

Acabei de ler um livro escrito pelo Gene Simmons, baixista, vocalista e dono do KISS. EU, S.A. Um livro sobre como ser bem sucedidos nos negócios. Ok, você se perguntou por que diabos eu teria comprado um livro desses? Simples, eu sou fã do KISS. Ponto. O livro é interessante pela história de vida de um garoto israelense, pobre, que vendia frutas no ponto de ônibus, que décadas depois virou Gene Simmons. Virou não, se fez. No mais, o livro é bom. Vale a leitura. É do Gene! O cara do KISS. Sim, eu sou fã e fã é assim. Ponto final.

Ainda estou lendo o livro do Feyerabend. Matando o tempo é uma autobiografia. Veja que interessante, também de um menino pobre, austríaco, que não vendia frutas no ponto de ônibus, que décadas depois se fez um dos maiores filósofos da ciência. Sou fã. Já era fã. Ainda não terminei a leitura, eu já disse. Estou cada vez mais fã do Paul Feyerabend. Ponto.

Ser fã de alguém é legal. Pessoas que nos inspiram. Pessoas que nos impulsionam. Parâmetros. Paradigmas (Hello, Kuhn!). Eu sou fã de muita gente. Gente que eu conheço, gente que eu jamais vou conhecer. Pouco importa. Sou fã do Gene e do Feyerabend. Dificilmente vou conhecer o Gene em algum lugar, menos ainda o Feyerabend, que já morreu. Sou fã do Cortella, de quem ganhei um livro autografado sem o conhecer pessoalmente, longa história, fica pra outro dia. Sou fã do Paulão do Velhas Virgens, mas esse eu conheci pessoalmente, troquei ideias pelo twitter e email, tirei foto junto. Coisa de fã. Sou fã de grandes mestres, professores que me inspiraram e hoje leciono com eles, somos colegas de trabalho. Ser fã é legal. Ser fã é saudável. O problema — e sempre há um problema — é ser fanático. Ai, mermão, ferrou. Mas eu não quero falar disso, pois vou cair naquilo que eu disse que não ia falar alguns parágrafos acima.

Já sei o título!! E você já sabia dele desde o início. Estranho, não?

Até o próximo.

Vale tudo, mas hoje não. Não na escola…

Paul Feyerabend foi um filósofo austríaco que se dedicou, em grande parte, à filosofia da ciência. Minha saudosa professora do mestrado, Maria Lúcia, me recomendou a leitura de sua biografia, coisa que eu, relapso, ainda não fiz. Maria Lúcia nos deixou, foi semear campos com seus heleantos em outras dimensões, e eu sinto que mesmo que eu venha a ler a biografia de Feyerabend, e eu vou, ela não terá o mesmo brilho que teria se eu pudesse discutí-la com minha professora. Mas não era sobre isso que eu ia falar.

Paul Feyerabend disse: ANYTHING GOES! Que na tradução mais comumente utilizada significa: vale tudo. Ele falava do método científico. Método, o meta ódos, o caminho através do qual, em grego. Método é o caminho que seguimos para realizar algo. Descartes, igualmente filósofo, porém francês e 328 anos mais velho que Feyerabend, também dedicou parte de seu trabalho filosófico à ciência. Descarte escreveu uma obra chamada O Discurso do Método, no qual descreve como se deve bem conduzir a razão na busca da verdade. Feyerabend, sem delongas, manda o método às quicas. Não, sejamos justos, ele não manda “o” método para as pontes que partem, mas a necessidade rígida de “um” método. Em suma, tudo vale. Crie o seu método, descarte Descartes e faça do seu jeito. Do it yourself. DIY. Mas não é sobre isso que eu quero falar.

Causa-me uma certa angústia quando eu ouço, em alto e bom som, na sala dos professores, uma criatura dizer que reprovou um trabalho por causa de um desvio de 0,5cm de erro no tamanho da margem da paginação do mesmo. Uma afronta à ABNT e suas sacrossantas normas. São nesses momentos em que a forma toma o lugar do conteúdo que eu respiro fundo, me levanto, procuro uma sala vazia e descarto-me. Fico pensando no aluno que foi colocado à margem por causa da margem. Eu entendo a necessidade de formalidades, elas são necessárias. Será que Descartes seguiu as normas da ABNT de sua época? Não sei. Creio que não. Reza a lenda que Descartes escrevia em latim quando queria agradar o clero, a ABNT da época. Mas quando queria ser mais livre, escrevia em francês. Por isso temos um plano cartesiano raramente reconhecido como obra de Descartes. Descartes em francês, Cartesius em latim. Chega de Descartes.

Paul Feyerabend. Levei uns bons anos para aprender a escrever seu nome direito. Curiosamente, assimilei a grafia de Nietzsche mais facilmente que Feyerabend. Certamente pronuncio errado. Anything goes! Pronuncio do jeito que eu quiser. Vale tudo. Deveria valer. Produzir conhecimento deveria ser um ato criativo, não normativo. A universidade, assim como a escola em todos os seus níveis, disciplinam a criatividade. De Paulo Freie a Ken Robinson, muita gente fala sobre isso. Estimular a criatividade. E, convenhamos, deixar as regras de lado, muitas vezes, é o elemento criativo.

“Insanidade é continuar fazendo sempre a mesma coisa e esperar resultados diferentes.”

Einstein é o autor da frase acima. É o que dizem. Se não for, dane-se. Ela vale por si só, não precisa do aval de Einstein. É óbvia. E, apesar da obviedade, ela é obliterada nas práticas docentes Brasil afora… descartada, segue-se fazendo-se do mesmo jeito, segundo o manual, dentro da caixa… deixando à margem os que não ABNTizam a margem. Marginais…

Desculpe, Paul. :/

Clique

Deixou cair sobre a cama mais que o próprio peso. Olhou para o teto por alguns segundos, pensando em quem teria escolhido aquela maldita luminária. Fechou os olhos, fechou-se ao mundo. Mergulhou nas entranhas do seu próprio pensamento, buscando no cotidiano dos documentos, das assinaturas, dos toques de telefone, do cheiro de café, alguma justificativa para aquele peso extra que fazia ranger, a cada meneio, as molas do velho colchão. Tentou ficar imóvel. Buscou o silêncio. Buscou o sentido daquele zumbido que lhe atormentava os ouvidos, um zumbido que só se fazia ouvir no interior de sua angústia. Maldita luminária, pensou novamente. Os dedos dos pés latejavam dentro do sapato. Sentia um misto de formigamento, calor e dor que brotava-lhe dos pés e fazia sentir-se por toda a musculatura até alcançar o fundo dos olhos… deixou os pés escorregarem para fora dos sapatos, afrouxou a gravata, buscou o interruptor sem sucesso. Corpo e mente, dormentes, desligaram-se. Apenas a luminária permaneceu acesa, a única testemunha de uma morte lenta e cadenciada. Morria em doses homeopáticas. Morria um pouco a cada noite. A luz que se projetava feria-lhe a vista. Aos poucos seus nervos óticos se ajustaram à luminosidade do novo dia, da velha luminária. Apertou o nó da gravata enquanto se preparava mais um dia. Preparava-se para morrer mais um pouco da sua morte. Lenta. Cadenciada. Ao sair, ainda com a mão sobre o interruptor, pensou, maldita luminária. *clique*

Por que alunos colam?

Lá estou eu na sala dos professores, ouvindo uma conversa tensa entre professores de um curso qualquer. A tensão gira ao redor de uma prova que foi fotografada e distribuída ao alunos de outro período. A maracutaia foi descoberta, na verdade intuída, a partir dos assombrosos 99% de notas máximas na referida avaliação. Propostas acaloradas pipocam na roda: do confisco de celulares e demais traquitanas tecnológicas ao uso de canetas transparentes, provas cifradas pelo número do RA e, por que não, colocar os alunos no ginásio, mantendo-os a 5 metros de distância uns dos outros. A cena seria cômica não fosse o real desespero daqueles professores. Inibir a cola a qualquer custo. De soslaio, eu observo a prova. 20 testes de múltipla escolha e duas questões dissertativas.

Existem inúmeras teorias e metodologias que dão conta, ou não, de discutir a avaliação escolar. Não vou entrar nessa seara. Por mais que eu tenha uma postura muito clara sobre o que vem a ser uma avaliação escolar, vou me abster de comentar. Vamos por outro caminho, vamos analisar essa criatura que habita as salas de aula, este ser que, ausente de luminosidade, rasteja no obscuro mundo da educação: o aluno. Alunos do tipo universitário, para fazer o recorte. O que são? Onde vivem? O quê comem? Hoje, neste blog…

Aluno é o “sem luz”. Etimologicamente, a palavra aluno designa aquele que não tem luz própria, logo, necessita de um mestre, um buda iluminado, um guia para a luz. Venha Carolyne, venha para a luz. Feito criaturas do limbo, poltergheisters aprisionados nas telas de seus aparatos tecnoilógicos, almas penadas e desencarnadas que não sabem exatamente onde estão, o que são e para onde vão.

O que leva um aluno, alguém que em tese está buscando uma formação profissional, uma qualificação que lhe renda melhores cargos, maiores salários ou, ainda que seja o caso, ainda que seja raro, satisfação pessoal, a colar numa prova? Pois, vejamos, a cola comporta duas dimensões: a menor delas, enganar o professor; a maior, enganar-se a si mesmo. A pergunta aqui proposta não comporta uma resposta simples. Meu amigo e xará, Edgar Morin, diria que a coisa é complexa.

Enganar, trapacear, burlar. Todos verbos conjugados no dia a dia. É possível que se conjugue-os, em certas circunstâncias, num sentido positivo, como se fosse licito enganar. Afinal, enganamos as crianças desde a tenra idade com mentiras como Papai Noel, Coelho da Páscoa etc. Alguns dirão não se tratar de engano, mas apenas de uma fabulação necessária ao desenvolvimento infantil. Polêmicas à parte, desde cedo aprendemos a enganar, a trapacear, a burlar. Trapaceamos nossos pais quando fingimos uma dor de barriga para não ir a escola, coisa que aprendemos com nossos pais, quando a mamãe compra um mimo na nossa frente e diz “não conte para o seu pai”, ai nasce o vínculo conivente, conviniente, cúmplice com o engodo. Salutar, em certo ponto. Nocivo quando desmedido. Voltemos à pergunta inicial.

Por quê alunos colam em provas que deveriam ser instrumentos de avaliação de sua performance escolar. Não seria de sumo interesse do aluno saber se ele está realmente aprendendo, se é que ele já não o sabe. Seria do interesse dos professores saber se estão conseguindo ensinar? Seria a prova o instrumento adequado para isso? Opa, eu disse que não iria entrar por essa seara… Desculpem-me.

Alunos colam porque seres humanos colam. E aqui cabe definir o que é colar. Acima, de forma inocente, dei a entender que colar é trapacear. Vejamos, se entendermos o verbo colar como o ato de consultar fonte ilícita de conhecimento, a saber, qualquer forma de conhecimento em suporte físico (papel, borracha, celular), bem como em suporte intangível, como a voz sussurrada do colega detrás, as piscadelas mnemônicas da garota do canto superior esquerdo, significando cada uma delas uma alternativa possível ou, ainda, o contato paranormal com entidades divinas. Se cada uma dessas formas de cola representa uma forma de trapaça, a cola está condenada e os coladores deverão arder no fogo dos infernos.

Por outro lado, se considerarmos a cola como o ato de recuperar algo que, submetido ao escrutínio da razão, pode nos ajudar a resolver uma questão, seja ela de ordem teórica, prática ou espiritual, então a cola é uma prática milenar, inscrita no DNA humano desde os primórdios, desde as cavernas, cenário das primeiras formas de registro de nosso conhecimento. Pierre Lévy, um filósofo que se mete a escrever sobre tecnologias, certa vez me disse, numa agradável tarde de verão, que as tecnologias são extensões de nós mesmos. Um caderno, daqueles que você guarda as senhas do banco, os telefones da tia Joana, as receitas de bolo da vovó Jurema ou os números fiscais da mercearia do seu Domingos, um caderno é um suporte tecnológico para a nossa memória. Tecnológico porque transformar árvores em folhas de papel não é magia, é tecnologia! Suporte porque nos ajuda, nos auxilia, guarda coisas que deixadas a cargo da memória, poderiam se perder. Oras, será que eu preciso me delongar? Não, voltemos à pergunta de um milhão de reais.

Alunos colam porque colar é inteligente. Ai ai ai… Vejamos, usar suportes tecnológicos para auxiliar nossa memória é uma ação inteligente. O caderno não pensa por nós. O livro de receitas da vovó Jurema não cozinha por nós. Ao invés de avaliar a capacidade de memorização dos alunos, as provas deveriam avaliar suas capacidades de, diante de múltiplos suportes tecnológicos, raciocinar sobre diversas fontes, teorias, dados e, analisando-os, comparando-os, confrontando-os, resolver problemas complexos, que demandam mais que saber a fórmula da água, o teorema de Pitágoras ou em que dia, mês e ano Dom Pedro II teve uma caganeira às margens do Ipiranga. Ai ai ai, falei demais…

Nessa mesma noite ajudei um colega professor a aplicar prova, a dele, com consulta, em duplas, com questões de compreensão e análise dos conteúdos tratados em aula junto dos conhecimentos trazidos pelos alunos. Todos colaram, todos consultaram seus cadernos, colegas, livros-texto, pais de santo e, sem que eles mesmos notassem, uma certa luminosidade se formou nos seus entornos… Deixaram de ser alunos!!

Até a próxima, poovooo.

Edgar.

Cansei de ser contrário.

Quer saber? Matem todos. Matem essas crianças malditas que incomodam nos faróis. E quer saber? Matem todos, inclusive esses filhinhos de papai que se drogam nas baladas da high-society. Matem os malditos bandidos que assaltam nossas casas. E, quer saber mais? Matem os malditos políticos que assaltam nossos cofres públicos. Matem todos. Quer saber, cansei de ser contrário. Cansei de defender uma racionalidade cuja a qual se defecam toneladas de opiniões. Basta! Matem todos. Sim, todos. Pois eu cansei de ser contrário. Se bárbaro é aquilo que não se faz entre os seus, os meus querem a morte. Matem todos. E se sobrar um único alguém, que se mate. Cansei de ser contrário. Passo para o lado dos otários e, quem não gostar, mate-me.

Até o próximo texto.
Fênix